


Em 1939, aos 11 anos de idade, o menino Flávio Silveira Damm ficou impressionado com as imagens da guerra nos jornais e quis saber do pai se eram os próprios soldados que faziam as fotos. Hoje, perto de completar 78, o fotógrafo gaúcho é um dos mais importantes profissionais da história do fotojornalismo brasileiro. Em todo esse tempo, confessa que nunca entendeu nada de futebol, mas foi num Grenal (Grêmio x Internacional) que estreou na reportagem e na primeira página de um jornal: — Cheguei cedo e estava focalizando uma arquibancada totalmente lotada quando ela sumiu do meu visor. Instintivamente, apertei o obturador e fiz as únicas fotos do desabamento de uma arquibancada inteira. Depois, saí registrando as vítimas. Vendi as fotos para a Folha da Tarde e para a extinta Revista do Globo, de Porto Alegre. Ganhei 600 cruzeiros e virei repórter mesmo, com nome no jornal. Em busca de uma boa foto, Flávio Damm fez muitas viagens (930 pelo Brasil e 65 ao exterior) e viveu muitas aventuras. Chegou a ir atrás do diabo para uma matéria para a revista O Cruzeiro — marco do fotojornalismo brasileiro — no interior de São Paulo, onde diziam que a população estava sendo aterrorizada por ele. É claro que não encontrou o sinistro personagem, mas registrou o povo amedrontado e ouviu suas histórias. Os registros, aliás, foram feitos como gosta: em preto e branco e focados no que chama de “cotidiano surreal”: — Para passar emoção a cor é desnecessária, mesmo quando há sangue. A fotografia em preto e branco exige composição, bagagem cultural e experiência, pois não convive com as facilidades que a cor oferece. Depois de 15 anos em O Cruzeiro, ao lado de José Medeiros e Jean Manzon, Flávio decidiu virar freelancer e, em 62, criou a Agência Jornalística Imagem, a primeira do gênero no Brasil. Em seis décadas de profissão, conseguiu reunir um acervo que já rendeu a publicação de 12 livros, entre os quais “Brasil futebol rei” (1965), “Ilustrações do Rio” (1970) e “Um Cândido pintor Portinari” (1971) — e apenas dois não esgotados: — Também escrevo para o site www.photos.com.br e a revista Photo Magazine, estou produzindo um livro sobre 24 reportagens que fiz para as revistas O Cruzeiro e do Globo e deixei nas mãos de editores três livros novos: uma retrospectiva, “Mulher dama” — sobre prostitutas da Bahia — e “Vejo Lisboa”. Flávio diz que não sai de casa sem uma câmera: — Tenho um arquivo com 60 mil negativos. Fotografo o que a minha leitura pede e não falo com meus fotografados antes, durante ou depois das fotos. Eles não me conhecem e eu não desejo conhecê-los. Somos anônimos e sem cara. Não uso flash e sou discreto. Faço minha aproximação como um gato e fujo da cena como um rato.
Fonte: ABI





