15.12.10

Comportamento aprendido

Os antigos provérbios: Tal pai, tal filho e; Filho de peixe peixinho é – são praticamente regra. O tal comportamento aprendido, muito bem definido pelo Psicoterapeuta Dr. Içami Tiba como “como somos”, é fatalmente manifestado em alguma ocasião de nossas vidas.

Pais equivocados causam estragos, muitas vezes irreversíveis, na personalidade dos filhos. Tanto quando os criam como gado, mantendo-os alimentados e às vezes limpos, só; como quando os super protegem. A falta do bom e velho bom senso aliada à falta de preocupação com o médio e longo prazos causam grande parte dos problemas de auto estima, ética e educação dos adultos. Que tipo de pessoas estamos criando?

Muitas pessoas esquecem que são exemplos para seus herdeiros e depois reclamam que “não deram sorte com seus filhos” como se fosse uma questão de sorte ou azar. Pais que abandonam seus filhos ou os ignoram não podem esperar nenhum tipo de consideração dos mesmos no futuro. O pior é que as novas gerações são versões potencializadas das antigas e isso é assustador.

Ultimamente, tenho observado inúmeros casos de pais, principalmente mães, que se intrometem e tomam decisões pelos filhos; que praticamente ignoram a existência deles; suas vontades e pensamentos; que os abandona; que os reprimem; e que não sabem impor nenhum tipo de limite. Depois esses pais se acham no direito de colocar a culpa nas crianças e se inscrevem no Super Nanny ou procuram um psicólogo para que uma pessoa estranha lhes ensine a educar seus próprios filhos.

O resultado dessa falta de respeito e atenção com as crianças nós acompanhamos diariamente em toda parte: seja pelos meios de comunicação, entre nossos parentes e amigos, ou até mesmo dentro de nossas casas.

Parafraseando o já citado Dr. Tiba: “Quem ama educa!”

11.12.10

Crime e castigo

Nesse período de “férias” particulares, entre uma emoção e outra, muitas noites insones e uma boa fase de adaptação, um dos meus companheiros foi Fiódor Mikhailovich Dostoievski.

Um dos maiores escritores russos de todos os tempos, publicou sua obra Crime e castigo em 1866. Trata-se de um romance que conta a história de Rodion Românovitch Raskólnikov, um jovem estudante de Direito que, como o título anuncia, comete um crime. O fato em si não é o tema central da narrativa, pois o drama vivido pelo personagem central é totalmente psicológico.

O autor é minucioso ao descrever o sofrimento e angústia de Raskólnikov antes e depois de praticar um assassinato. São inúmeros questionamentos de ordem religiosa e existencialista. Por mais que ele seja um criminoso o ato é quase justificado e nós leitores não o enxergamos como um vilão. Dentre seus pensamentos caóticos é perfeitamente possível encontrar uma boa dose de coerência.

O texto prende a atenção do começo ao fim, é perturbador. Clássicos são clássicos não por acaso.

Guilherme de Almeida


Um sábio me dizia: esta existência,
não vale a angústia de viver. A ciência,
se fôssemos eternos, num transporte
de desespero inventaria a morte.
Uma célula orgânica aparece
no infinito do tempo. E vibra e cresce
e se desdobra e estala num segundo.
Homem, eis o que somos neste mundo.

Assim falou-me o sábio e eu comecei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um monge me dizia: ó mocidade,
és relâmpago ao pé da eternidade!
Pensa: o tempo anda sempre e não repousa;
esta vida não vale grande coisa.
Uma mulher que chora, um berço a um canto;
o riso, às vezes, quase sempre, um pranto.
Depois o mundo, a luta que intimida,
quadro círios acesos : eis a vida

Isto me disse o monge e eu continuei a ver
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Um pobre me dizia: para o pobre
a vida, é o pão e o andrajo vil que o cobre.
Deus, eu não creio nesta fantasia.
Deus me deu fome e sede a cada dia
mas nunca me deu pão, nem me deu água.
Deu-me a vergonha, a infâmia, a mágoa
de andar de porta em porta, esfarrapado.
Deu-me esta vida: um pão envenenado.

Assim falou-me o pobre e eu continuei a ver,
dentro da própria morte, o encanto de morrer.

Uma mulher me disse: vem comigo!
Fecha os olhos e sonha, meu amigo.
Sonha um lar, uma doce companheira
que queiras muito e que também te queira.
No telhado, um penacho de fumaça.
Cortinas muito brancas na vidraça
Um canário que canta na gaiola.
Que linda a vida lá por dentro rola!

Pela primeira vez eu comecei a ver,
dentro da própria vida, o encanto de viver.

Guilherme de Almeida

Neste momento: Paris

Nasci no Brasil, meu sobrenome é italiano, tenho passaporte português, moro na Inglaterra e estou pela primeira vez na França. Hoje...