25.2.10

Dela

Rifa-se um coração
Rifa-se um coração quase novo.
Um coração idealista.
Um coração como poucos.
Um coração à moda antiga.
Um coração moleque que insiste em pregar peças no seu usuário.

Rifa-se um coração que na realidade está um pouco usado, meio calejado, muito machucadoe que teima em alimentar sonhos e, cultivar ilusões.
Um pouco inconseqüente que nunca desiste de acreditar nas pessoas.
Um leviano e precipitado coração que acha que Tim Maia estava certo quando escreveu…“…não quero dinheiro, eu quero amor sincero, é isso que eu espero…”.
Um idealista… Um verdadeiro sonhador…

Rifa-se um coração que nunca aprende.
Que não endurece, e mantém sempre viva a esperança de ser feliz, sendo simples e natural.
Um coração insensato que comanda o racional sendo louco o suficiente para se apaixonar.
Um furioso suicida que vive procurando relações e emoções verdadeiras.
Rifa-se um coração que insiste em cometer sempre os mesmos erros.
Esse coração que erra, briga, se expõe.
Perde o juízo por completo em nome de causas e paixões.
Sai do sério e, às vezes revê suas posições arrependido de palavras e gestos.Este coração tantas vezes incompreendido.Tantas vezes provocado.
Tantas vezes impulsivo.

Rifa-se este desequilibrado emocional que abre sorrisos tão largos que quase dá pra engolir as orelhas, mas que também arranca lágrimas e faz murchar o rosto.
Um coração para ser alugado, ou mesmo utilizado por quem gosta de emoções fortes.
Um órgão abestado indicado apenas para quem quer viver intensamente
Contra indicado para os que apenas pretendem passar pela vida matando o tempo, defendendo-se das emoções.

Rifa-se um coração tão inocente que se mostra sem armaduras e deixa louco o seu usuário.
Um coração que quando parar de bater ouvirá o seu usuário dizer para São Pedro na hora da prestação de contas:“O Senhor pode conferir.
Eu fiz tudo certo, só errei quando coloquei sentimento.
Só fiz bobagens e me dei mal quando ouvi este louco coração de criança que insiste em não endurecer e, se recusa a envelhecer”

Rifa-se um coração, ou mesmo troca-se por outro que tenha um pouco mais de juízo.
Um órgão mais fiel ao seu usuário.
Um amigo do peito que não maltrate tanto o ser que o abriga.
Um coração que não seja tão inconseqüente.
Rifa-se um coração cego, surdo e mudo, mas que incomoda um bocado.
Um verdadeiro caçador de aventuras que ainda não foi adotado, provavelmente, por se recusara cultivar ares selvagens ou racionais, por não querer perder o estilo.
Oferece-se um coração vadio, sem raça, sem pedigree.
Um simples coração humano.

Um impulsivo membro de comportamento até meio ultrapassado.
Um modelo cheio de defeitos que, mesmo estando fora do mercado, faz questão de não se modernizar, mas vez por outra, constrange o corpo que o domina.
Um velho coração que convence seu usuário a publicar seus segredos e a ter a petulância de se aventurar como poeta. Nunca ouvi palavras que me falassem tanto à alma.
Clarice Lispector

21.2.10

Flutuando no mar

"Não basta saber ler para ler poesia. Ler poesia é uma arte. Exige que o leitor se coloque numa posição especial de alma. O segredo da poesia está na música da leitura. Mais do que uma arte: é um ato de bruxedo. O leitor invoca um mistério que se encontra nos interstícios das palavras do poeta. Essas palavras estão dentro dele mesmo. O poema faz-me ouvir um poema que está dentro de mim. Esse poema que está dentro de mim é um pedaço de mim."

"Você já experimentou ficar boiando no mar? O corpo todo solto, sem fazer nada, nenhum movimento, subindo e descendo ao sabor das ondas? Pois é assim que se lê poesia: flutuando ao sabor das palavras, sem pressa, em voz alta, poesia é música."

"São falas do coração. Por favor: não tente entender. Música não é para ser entendida. é para ser ouvida. Poesia não é para ser entendida. É para ser lida em voz alta"

Rubem Alves

11.2.10

Belo dedilhado

De ascendência portuguesa, César Guerra-Peixe nasceu em Petrópolis - RJ em 18 de março de 1914. Aos sete anos já tocava violão, violino e piano de ouvido.
Iniciou seus estudos de violino com o professor Gao Omacht, no Conservatório Santa Cecília de Petrópolis, no ano de 1925. Neste estabelecimento estudou também um pouco de piano e teoria musical.
Teve sua Sinfonia n. 1 (1946) executada pela Orquestra da BBC de Londres. Mais tarde, seu Noneto foi regido por Hermann Scherchen, que o convidou para residir na Europa. Mas Guerra Peixe preferiu assinar contrato com uma emissora de rádio do Recife, como orquestrador e compositor, a fim de poder estudar os aspectos menos divulgados do folclore nordestino. Ali aprofundou suas pesquisas, colhendo temas, anotando ritmos, observando cada peça e reunindo conclusões que seriam publicadas, em 1956, em sua esplêndida obra Maracatus do Recife.Realizou também pesquisas em São Paulo. Fixou residência no Rio de Janeiro a partir de 1962, tornando-se violinista da Orquestra Sinfônica Nacional e professor de composição do Seminário de Música Pró Arte. Lecionou também na Escola de Música da Universidade Federal de Minas Gerais e na Escola de Música Villa-Lobos. Foi o criador da Escola Brasileira de Música Popular. Faleceu no Rio de Janeiro em 26 de novembro de 1993.

Neste momento: Paris

Nasci no Brasil, meu sobrenome é italiano, tenho passaporte português, moro na Inglaterra e estou pela primeira vez na França. Hoje...