29.12.09

Pipocas da vida


Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho para sempre. Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo, fica do mesmo jeito a vida inteira.
São pessoas de uma mesmice e uma dureza assombrosa. Só que elas não percebem e acham que seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos: a dor.
Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, o pai, a mãe, perder o emprego ou ficar pobre. Pode ser fogo de dentro: pânico, medo, ansiedade, depressão ou sofrimento cujas causas ignoramos.
Há sempre o recurso do remédio: apagar o fogo! Sem fogo o sofrimento diminui. Com isso, a possibilidade da grande transformação também.
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro cada vez mais quente, pensa que sua hora chegou: vai morrer.
Dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar um destino diferente para si. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada para ela.
A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo a grande transformação acontece: Bum!
E ela aparece como uma outra coisa completamente diferente, algo que ela mesma nunca havia sonhado. Bom, mas ainda temos o piruá, que é o milho de pipoca que se recusa a estourar.
São como aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem.
A presunção e o medo são a dura casca do milho que não estoura. No entanto, o destino delas é triste, já que ficarão duras a vida inteira.
Não vão se transformar na flor branca, macia e nutritiva. Não vão dar alegria para ninguém.


Rubem Alves

23.12.09

O que é o amor afinal?

Rubem Alves e suas variadas e deliciosas citações me esclareceram da forma mais poeticamente prática possível o que é esse sentimento tão poderoso: o Amor.
Além de escrever divinamente, suas ideias são de uma sensibilidade ímpar.
Lendo O retorno e terno constatei o que sempre imaginei, mas sem embasamento teórico, só empírico.
Em meio às linhas de suas crônicas Alves afirma que não amamos alguém. Amamos as sensações que o outro provoca em nós, os momentos agradáveis, às vezes até surreais. Quando há uma sintonia perfeita, então, é muito difícil de resistir.
Os dispostos se atraem, como diz o poeta Fernando Anitelli. Logo, quando essa tal disposição nos abandona, tudo cai por terra. As sensações e sentimentos perdem a importância, deixam de existir. Sem vontade e dedicação ele (o amor) morre.
É sempre triste quando perdemos algo ou alguém muito querido. Mesmo sabendo que dói profundamente, acredito que se tivermos medo de sofrer deixaremos de viver bons momentos.
E a vida é feita deles. Já que o sofrimento é inevitável, não devemos teme-lo. Viver é se arriscar!!!

Mistura interessante



Nosso sonho
Se perdeu no fio da vida.
E eu vou embora
Sem mais feridas,
Sem despedidas.
Eu quero ver o mar.

Se voltar desejos
Ou se eles foram mesmo,
Lembre da nossa música,
Música.
Se lembrar dos tempos,
Dos nossos momentos,
Lembre da nossa música,
Música.

Nossas juras de amor
Já desbotadas.
Nossos beijos de outrora
Foram guardados.
Nosso mais belo plano
Desperdiçado.
Nossa graça e vontade
Derretem na chuva.

Se voltar desejos
Ou se eles foram mesmo,
Lembre da nossa música,
Música.
Se lembrar dos tempos,
Dos nossos momentos,
Lembre da nossa música,
Música.

Um costume de nós
Fica agarrado.
As lembranças, os cheiros
Dilacerados.
Nossa bela história
Está no passado.
O amor que me tinhas
Era pouco e se acabou.

Vanessa da Mata

1.12.09

Polêmico

O romancista português extremamente irônico e atrevido, José Saramago acaba de lançar mais uma obra recheada de polêmica. O novo livro do autor de mente tão criativa e lúcida é Caim. O ganhador do prêmio Nobel de Literatura em 1998, conta a história do filho de Adão e Eva que matou o irmão, e me parece que ele não é descrito como um monstro.
Enquanto isso, a igreja católica já se debate, é claro!
Vamos conferir!



Declarações do bom velhinho, mestre da literatura.

"A Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana.”
"Sem a Bíblia, um livro que teve muita influência em nossa cultura e até em nossa maneira de ser, os seres humanos seriam provavelmente melhores" O romancista denunciou "um Deus cruel, invejoso e insuportável, que existe apenas em nossas mentes."


José Saramago

21.11.09

Skap


Quando você diz o que ninguém diz
quando você quer o que ninguém quis
quando você ousa lousa pra que eu possa ser giz
quando você arde alardeia minha teia, cheia de ardiz
quando você faz a minha carne triste quase feliz

Você me faz parecer menos só... menos sozinho
você me faz parecer menos pó... menos pózinho

Zeca Baleiro

Reflexo


Pois toda essa beleza que tiveste vem de meu coração, que é teu espelho. Meu bem, é bem melhor que tudo posto"

Shakespeare

20.11.09

Memória

Alma é o nome do lugar onde se encontram esses pedaços perdidos de nós mesmos. São partes do nosso corpo como as pernas, os braços, o coração. Circulam em nosso sangue, estão misturadas com os nossos músculos. Quando elas aparecem o corpo se comove, ri, chora...
Para que servem elas? Para nada. Não são ferramentas. Não podem ser usadas. São inúteis. Elas aparecem por causa da saudade. A alma é movida à saudade. A alma não tem o menor interesse no futuro. A saudade é uma coisa que fica andando pelo tempo passado à procura dos pedaços de nós mesmos que se perderam.

Rubem Alves

15.11.09

Poesia



Se matar-me em ti
um pouco de ti também morrerás
e esse pouco de ti
carregarei comigo
e, estarás viva
quando cada lágrima caída
fizer reviver
o que sequer pudemos
ter sido um dia
não será solução
chamar-te de amiga
se matar-me em ti
morremos juntos
tudo o que não fomos


E.S

11.11.09

O velho e bom rádio, mais uma vez brilhou na escuridão


Dentre os milhares de textos sobre o temido apagão, este foi escrito de uma ótica especial, apaixonada. Essas linhas foram escritas pelo jornalista e radialista José Nello Marques, atualmente comunicador da Rádio Record.
Uma grande parte do Brasil ficou novamente no escuro na noite de terça e madrugada desta quarta feira. Quando caiu a energia elétrica, a primeira idéia era de um transformador queimado na rua. Uma olhada geral e a coisa passou a ser no bairro, quem sabe uma sub-estação. Mas passando os minutos na escuridão, veio a certeza: era um apagão geral, ou, para ser elegante, um “blackout”.
Os vizinhos saíram na porta das casas se indagando o que teria acontecido. Nos apartamentos, televisão analógica ou digital desligada, internet banda larga ou curta pifada e celulares 3G, 4D ou 5S sem linha no mundo moderno e tecnológico. O que teria acontecido?, perguntavam todos.
Como é que a gente vai saber? Foi aí que alguém se lembrou dele:
Simples: pega aquele aparelhinho que foi inventado há quase 100 anos, que não precisa de tomada, apenas de uma ou duas pilhas e pronto, vamos novamente nos conectar ao planeta.
Simples: o velho e bom radinho de pilhas amainou a ansiedade de milhares de pessoas que estavam no escuro de luz e informação. E o velho e bom rádio novamente cumpriu o seu papel. Quem não achou, correu para o carro na garagem e ligou o dito cujo.
Informações sobre bairros e cidades às escuras, autoridades pedindo cuidado no transito sem semáforos e nos locais mais isolados por causa da bandidagem, repórteres buscando informações sobre as causas do apagão e quando a energia seria restabelecida, CET dizendo que tinha mandado de volta às ruas seu contingente e tantas outras notícias e palavras que revelavam informações e a certeza de que alguém estava do outro lado.
O velho e bom rádio cumpriu novamente o seu papel de informar, prestar serviço e acalmar a população. Mais uma demonstração que prova a eficiência do veículo de comunicação mais barato e ágil em todo o globo terrestre de cabos, laser, fibras óticas e todas as engenhocas criadas recentemente.
Perdoando o despreparo de jovens que nunca tinha participado de uma cobertura de fôlego como essa, tirando as perguntas que mais pareciam teses, tirando as linhas telefônicas que caíam e alguns erros gramaticais, o rádio foi perfeito.
As cores digitais são muito bonitas, espetaculares. Mas não se esqueça do seu companheiro de todas as horas, de todos os lugares. O velho e bom rádio, que você enxerga até no escuro.

José Nello Marques

Apagão

Onde você estava na hora do apagão? Ainda bem que eu estava em casa, imagina se estivesse na faculdade, na hora da saída, sem metro, só Deus sabe o que eu teria feito. Sem televisão, apelamos para o bom e velho rádio. Metade das emissoras FM estava fora do ar, mas a CBN me manteve informada durantes aquelas horas de escuridão total. Engraçado que o rádio produz imagens em nossa mente.
No começo, a locutora (que agora não me lembro o nome), desavisada, deu a notícia como uma coisa casual. "O ouvinte Fulano diz que a região de Perdizes está sem energia elétrica neste momento". De repente outro ouvinte, mais um e mais um... Minutos depois era possível ouvir a produtora falando ao telefone de fundo. Os repórteres entraram ao vivo, cada um da janela de seu apartamento dizendo como viam a situação. Além de dizerem que entraram em contato com parentes do Rio, outro de Minas, Espírito Santo... O apagão tinha chegado ao Paraguai.
Eu em casa, no escuro, ouvindo todas aquelas informações senti-me como em uma das histórias de Saramago. Metro parado, os hospitais funcionando por geradores, sabe-se lá até quando, as linhas do metro e da CPTM paradas, estações fechadas, arrastão nas ruas do centro, etc. O caos estava instalado, parecia que aquela madrugada não teria fim e realmente ela foi bem longa para muitas pessoas que estavam longe de casa naquela hora.

6.11.09

Livre


“O homem está condenado a ser livre”. Para Sartre, nossas escolhas são direcionadas por aquilo que nos parece ser o bem. Segundo Artur Polônio, “se a vida não tem, à partida, um sentido determinado […], não podemos evitar criar o sentido de nossa própria vida. A vida nos obriga a escolher entre vários possíveis [mas] nada nos obriga a escolher uma coisa ou outra”. De nada adianta recorrer a explicações religiosas ou espirituais. Destino? Está escrito? Quem disse? Dentro dessa perspectiva, recorrer a uma suposta ordem divina representa apenas uma incapacidade de arcar com as próprias responsabilidades. Cada um é responsável pelo rumo que a vida segue. Livre arbítrio, façamos uso dele. Liberdade!

Escolhas


As pessoas, coisas e situações que formam sua vida, são todas resultados de suas escolhas...
Tudo o que você tem, tudo o que você faz, tudo aquilo em que você mesmo se transforma,
é o resultado de suas escolhas.
Você tem o poder de decidir a direção de sua vida.
Como você vai usar esse poder?
Qual a sua escolha nesse exato instante?
Robert Marshal

4.11.09

Separação



Sabia que era aquela a sua amada, por quem esperara desde sempre e que por muitos anos buscara em cada mulher, na mais terrível e dolorosa busca.
Sabia, também, que o primeiro passo que desse colocaria em movimento sua máquina de viver e ele teria, mesmo como um autômato, desair, andar, fazer coisas, distanciar-se dela cada vez mais, cada vez mais. E no entanto ali estava, a poucos passos, sua forma feminina que não era nenhuma outra forma feminina, mas a dela, a mulher amada, aquela que ele abençoara com os seus beijos e agasalhara nos instantes do amor de seus corpos. Tentou imaginá-la em sua dolorosa mudez, já envolta em seu espaço próprio, perdida em suas cogitações próprias - um ser desligado dele pelo limite existente entre todas as coisas criadas. De súbito, sentindo que ia explodir em lágrimas, correu para a rua e pôs-se a andar sem saber para onde…

Vinícius de Moraes

2.11.09

Preconceito Linguístico, o início

Vasculhando coisas antigas, encontrei nosso “primeiro filho”. O primeiro vídeo produzido para o curso de jornalismo.
Vale ressaltar que o áudio está ruim, pois as condições técnicas na data não favoreciam muito. Outro detalhe importante é que 90% das fotos foram feitas por nós. Uns 20% por mim e o restante pelo meu amigo Silvio Crisóstomo. A locução também é nossa. A proposta do trabalho é uma retextualização do livro de Marcos Bagno intitulado: Preconceito Linguístico o que é, como se faz. Trabalho realizado no primeiro semestre de 2009 para a disciplina de Língua Portuguesa. DOIS: Amigos jornalistas, fotógrafos e quase cineastas.

Op Art

Op Art é uma abreviação em inglês de “Optical Art”, ou Arte Óptica. Movimento que surgiu na década de 30 e seu precursor foi o húngaro Victor Vasarely. A Op Art defende uma arte com menos expressão e mais visualização. É contrária a harmonia estática da arte tradicional, simbolizando um mundo em profunda transformação e altamente instável. O movimento foi dividido em duas fases. Em princípio o “Black e White” e mais tarde as cores fortes e contrastantes coloriram as obras. Sugerindo um efeito perfeito de movimento. Essa arte cria uma nova relação com o espectador, que deixa de ser elemento passivo e passa a imaginar e interpretar uma obra de arte sem limites espaciais. Explorando a falibilidade do olho através de ilusões ópticas, as obras da Op Art transmitem movimento e dinamismo. A criação de efeitos visuais através de tons vibrantes, repetitivos e alto-contrastantes, círculos concêntricos e formas que parecem pulsar, são as características predominantes neste estilo artístico. Porém, logo a Pop Arte ofuscou o brilho da Op art, mas esta última também permanece presente em nosso cotidiano.

De "Nós 4" para o Profº Odair Soares, de História da arte.

31.10.09

Plantar

Plantar para colher. Parece clichê, mas a vida é cheia deles. Nosso mundo é dividido em dois: o que queremos e o que realmente podemos ter ou fazer. Algumas vezes desejamos profundamente uma situação, mas por N motivos não conseguimos viver como gostaríamos. Assim, só nos resta mentir e dissimular. Porém, não podemos esquecer da Lei do retorno que é uma das únicas verdades existentes, se é que há alguma verdade. Depois não adianta se arrepender. Se quisermos, mesmo que em um futuro relativamente distante, viver certas experiências, devemos cultivar o presente. De nada adianta privar-nos de sensações, se no fundo, o lado esquerdo do cérebro grita por vida. Ainda mais em se tratando de pessoas que não vivem à margem do rio. Que não são conformistas nem conformadas. Decepções sempre vão acontecer, mas viver é preciso. Se esse é o preço pagaremos sempre que valer a pena. É só não deixar a covardia tomar conta dos pensamentos, impedindo-nos de termos atitudes que só nós podemos ter por nós. Alguns caminhos, infelizmente, não têm volta. Não existe nada mais triste do que jogar no lixo sentimentos nobres. Como na oração, seja feita a vossa vontade. Sejamos corajosos o bastante para assumir o que sentimos ou então, para lidarmos com as conseqüências de nossas escolhas. Afinal, a vida é feita delas.

Sábado...

27.10.09

Hoje é ele



Saudade de tudo

Saudade, essencial e orgânica,

de horas passadas

que eu podia viver e não vivi!

Saudade de gente que não conheço,

de amigos nascidos noutras terras,

de almas órfas e irmãs,

de minha gente dispersa,

que talvez ainha hoje espere por mim

Saudade triste do passado,

saudade gloriosa do futuro,

saudade de todos os presentes

vividos fora de mim!

Pressa!...

Ânsia voraz de me fazer em muitos,

fome angustiosa da fusão de tudo,

sede da volta finalda grande experiência:

uma só alma em um só corpo,

uma só alma-corpo,

um só,um!

Como quem fecha numa gota

o Oceano,

afogado no fundo de si mesmo


Guimarães Rosa

Longe

Uma semana longe, longa, cansativa e problemática. Isso não significa abandono, apenas falta de tempo e de cabeça no lugar para escrever. Depois de uma semana complexa, de volta ao mundo real.

20.10.09

Sintonia

Palavra que significa: estado de dois sistemas ou pessoas suscetíveis de emitir oscilações elétricas ou emocionais da mesma frequência; igualdade de frequência entre dois sistemas de vibrações, seja de qualquer natureza; acordo mútuo, reciprocidade e simpatia. Palavrinha bonita, sonora e bastante significativa, fundamental nas relações humanas. Algumas pessoas, mesmo sem se conhecerem, vibram na mesma sintonia. Quando o encontro acontece, a troca de energia é quase orgástica. Isso em todos os níveis de relação, seja profissional, de amizade ou amorosa. Os corpos, aparentemente estranhos, criam um magnetismo incontrolável. Pensamentos e palavras se encaixam e se completam perfeitamente. É quase mágico. Não existe nada mais agradável do que perceber essa afinidade e desfrutar de momentos quase sempre agradabilíssimos com nossas almas gêmeas. Melhor ainda é conseguir mantê-las, apesar das adversidades. Quando essa tal palavrinha não existe, não é culpa de ninguém. Esse é mais um dos mistérios da natureza humana. Quem nunca sentiu isso, não viveu. Certas sensações exercem um poder absurdo sobre nós, não há como escapar. Às vezes, mesmo quando tudo parece confuso, algumas respostas saltam aos olhos. Esses que são, realmente, as portas da alma.

Um pouco mais de poesia musical

Só para não perder o costume... Chico



Eu te amo

Ah, se já perdemos a noção da hora
Se juntos já jogamos tudo fora
Me conta agora como hei de partir
Se, ao te conhecer, dei pra sonhar, fiz tantos desvarios
Rompi com o mundo, queimei meus navios
Me diz pra onde é que inda posso ir
Se nós, nas travessuras das noites eternas
Já confundimos tanto as nossas pernas
Diz com que pernas eu devo seguir
Se entornaste a nossa sorte pelo chão
Se na bagunça do teu coração
Meu sangue errou de veia e se perdeu
Como, se na desordem do armário embutido
Meu paletó enlaça o teu vestido
E o meu sapato inda pisa no teu
Como, se nos amamos feito dois pagãos
Teus seios inda estão nas minhas mãos
Me explica com que cara eu vou sair
Não, acho que estás se fazendo de tonta
Te dei meus olhos pra tomares conta
Agora conta como hei de partir
Tom Jobim e Chico Buarque

18.10.09

Crônica nota... 10

Leitura seletiva Em entrevista concedida a uma revista mensal, o psicanalista e professor Pierre Bayard pediu aos colegas que parassem de fingir que lêem tudo e que admitam que não é essencial ler um livro até o fim. Nunca havia pensado por esse lado. Senti-me arrasada quando, ainda adolescente, comecei a ler “Violetas na Janela” e não consegui passar da 20ª página. Pensei que estava emburrecendo ou começando a ter preguiça de ler. Após uma breve reflexão sobre o assunto, percebi que “Patrícia” estava subestimando minha inteligência com aquelas explicações simplistas e ridículas. Fiquei horrorizada ao “descobrir” que quando morrer vou continuar andando de ônibus no andar de cima. Depois disso, passei a pensar seriamente em ir para o inferno, lá é quente e nunca ouvi falar que tem esse tipo de transporte coletivo. Não fazia sentido, dentro de um ônibus lotado sentia-me perto do inferno. Isso bagunçou um pouco minha cabeça. Mas, superei os traumas deixados por Patrícia e agora não me preocupo mais. Se o livro é chato ou não me acrescenta nenhum conhecimento útil, deixo de lado sem pestanejar. Com o livro seguinte descobri que adoro ler, de tudo um pouco, embora tenha aprendido a selecionar melhor os autores. Quando minha mãe, a maior incentivadora e direcionadora de minha leitura, ficou sabendo do fato me deu uma bronca por ter começado a ler um livro como esse. Não foi isso que ela me ensinou. No começo da minha adolescência, ela lia poesia pra mim. Lembro-me claramente da sua boca em movimento e o som de sua voz dizendo, “minha alma de sonhar-te anda perdida, meus olhos andam cegos de te ver. Não és se que razão do meu viver, pois que tu és já toda a minha vida. Não vejo nada assim enlouquecida, passo no mundo meu amor a ler, no misterioso livro do teu ser, a mesma história tantas vezes lida.” Com esse começo, dificilmente leio coisas ruins novamente, agora com a declaração de Bayard, fico com a consciência tranquila. Pensando bem, dependendo da leitura nem há necessidade de ler até a última página, economiza-se tempo.

16.10.09

Luz

Nada como um lampejo de lucidez. Cinco minutos de reflexão são suficientes para alterar o estado de espírito. Enxergar a realidade clara e objetivamente, as situações estabelecidas indicam como será o futuro. Antes das grandes surpresas todo o resto era previsível e clichê. Enfrentar a vida sem dramas, sem ilusões, com sonhos sim, mas para o que realmente importa. Chega de pensar no SE, sejamos práticos e objetivos. Acompanhando a maré, mas seguindo o caminho mais agradável possível ou o menos dolorido. Existe tanta coisa boa e a gente perdendo tempo dando atenção à detalhes inúteis. Para quê? O lema deve ser: viver e aproveitar o que há de melhor. Afinal, como dizia o poeta: o futuro não é mais como era antigamente.

15.10.09

Amar


Eu quero amar, amar perdidamente!
Amar só por amar: Aqui...além...
Mais Este e Aquele, o Outro e toda a gente
Amar!Amar!E não amar ninguém!
Recordar?Esquecer?Indiferente!...
Prender ou desprender?É mal?É bem?
Quem disser que se pode amar alguém
Durante a vida inteira é porque mente!
Há uma Primavera em cada vida:
É preciso cantá-la assim florida,
Pois se Deus nos deu voz, foi pra cantar!
E se um dia hei-de ser pó,cinza e nada
Que seja a minha noite uma alvorada,
Que me saiba perder... pra me encontrar...
Florbela Espanca

11.10.09

Amor incondicional

Em uma manhã comum de sol forte e céu azul, durante a primeira refeição do dia, quando tudo parecia dentro da velha conhecida rotina, surge um, dos vários assuntos interessantes. Esse especialmente me deixou emocionada durante vários momentos do meu dia.
A pessoa mais importante do meu mundo, por quem eu tenho uma admiração profunda e um amor incondicional me disse algumas frases que ecoaram em minha mente por horas a fio.
Viver é mágico, cada dia um aprendizado, uma história diferente. Aprender a valorizar o que realmente importa e conhecer o verdadeiro sentido da frase: “Eu morreria por você.”
Muitas pessoas passam pela vida sem amar alguém profundamente. Alguns se enganam. O amor incondicional é um privilégio de poucos. Amor de mãe! O resto é efêmero, mesquinho. Depois disso, nada mais importa. E particularmente a minha é a melhor de todas.

5.10.09

Aos sem imaginação

A coerência é o último refúgio dos que não têm imaginação.
Oscar Wilde

Roda mundo

Tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu... O tempo nos atropela, sem nos deixar ao menos enxergar o que se passa. Algumas coisas importantíssimas ficam para trás, perdidas, talvez para sempre. Mas a relatividade dele faz com que sintamos uma mínima esperança de que no final tudo vai dar certo. Detesto textos de auto ajuda, não sei a quem eles ajudam. Por aqui, sigo meu tempo e minhas vontades, na medida do possível. Fico impressionada como poucos minutos são capazes de mudar completamente o rumo de nossas vidas. Sem saber o que fazer, acompanho meus pés por aí. Além de nossas burrices, o pior é quando há outras pessoas igualmente idiotas envolvidas que cometem idiotices maiores que as nossas e atrapalham ainda mais tudo o que já não é fácil. Como pode alguém fazer certas coisas por impulso? Detesto gente impulsiva e irracional, elas sempre se arrependem do que fazem e não aprendem a lição. Mas o mais maluco disso tudo é que estou absolutamente controlada. Os tempos mudaram, as preocupações mudaram, mas certas vontades continuam quase intactas. A gente quer ter voz ativa, no nosso destino mandar, mas eis que chega a roda viva e carrega o destino pra lá, roda mundo, roda-gigante... Viva o poeta dos poetas e que venham as ondas.

27.9.09

Angústia

Tortura do pensar! Triste lamento!
Quem nos dera calar a tua voz!
Quem nos dera cá dentro, muito a sós,
Estrangular a hidra num momento!

E não se quer pensar!...e o pensamento
Sempre a morder-nos bem, dentro de nós...
Querer apagar no céu - ó sonho atroz! -
O brilho duma estrela, com o vento!...

E não se apaga, não...nada se apaga!
Vem sempre rastejando como a vaga...
Vem sempre perguntando: "O que te resta?..."

Ah! não ser mais que o vago, o infinito!
Ser pedaço de gelo, ser granito,
Ser rugido de tigre na floresta!


Florbela Espanca

17.9.09

Soneto de fidelidade

Ophélia

Paisagem

Cada minuto é apenas um momento musical,
sem memória.. E a saudade não vem de
longe, é como uma cor outonal na paisagem
e muda como um poente...Não há futuro.
Tudo é paisagem para os nossos olhos
calmos e líricos.
Sentimos a intimidade das coisas
impossíveis.
Cristovam Pavia

Ausência de sentidos

O destino nos prega muitas peças. Um ano que ainda nem acabou transformou a minha vida completamente. Tudo é novidade. Alguns pensamentos e esperanças ficaram pelo caminho. Estou em vários lugares, em várias épocas e tenho a impressão de que não estou em lugar algum. Estou à margem do mundo, sem visão, gosto, prazer, fome, sede, sentimentos, sensações, sem luz no fim do túnel. Não me enxergo, não me sinto. Não sinto a presença de ninguém e é como se ninguém sentisse a minha. Sou um corpo estranho. Acordei e minha alma se esqueceu de me acompanhar. O que será isso? Ninguém me vê. Hoje, meu nome é angústia. Angústia de verdade. Aquela que embrulha o estômago, deixa a visão turva e dá um nó na garganta. A qualquer momento... desabo. Sinto-me perdida, não tenho a mais remota ideia do que fazer, nem pra onde ir. Parafraseando um grande poeta: “Eu sinto como se eu seguisse os meus sapatos por aí...” Tenho uma sensação profunda de que algo importante vai acontecer e me parece bem natural, embora eu nem imagine o que seja. Que dia estranho, literalmente sem sentido ou sentidos.

7.9.09

Bauman

“Nosso PNB (Produto Nacional Bruto) considera em seus cálculos a poluição do ar, a publicidade do fumo e as ambulâncias que rodam para coletar os feridos em nossas rodovias. Ele registra os custos dos sistemas de segurança que instalamos para proteger nossos lares e as prisões em que trancafiamos os que conseguem burlá-los. Ele leva em conta a destruição de nossas florestas de sequóias e sua substituição por uma urbanização descontrolada e caótica. Ele inclui a produção de napalm, armar nucleares e dos veículos armados usados pela polícia para reprimir a desordem urbana. Ele registra... programas de televisão que glorificam a violência para vender brinquedos a crianças. Por outro lado, o PNB não observa a saúde de nossos filhos, a qualidade de nossa educação ou a alegria de nossos jogos. Não mede a beleza de nossa poesia e a solidez de nossos matrimônios. Não se preocupa em avaliar a qualidade de nossos debates políticos e a integridade de nossos representantes. Não considera nossa coragem, sabedoria e cultura. Nada diz sobre nossa compaixão e dedicação a nosso país. Em resumo, o PNB mede tudo, menos o que faz a vida valer a pena.”

Robert Kennedy

Kennedy foi morto poucas semanas depois de publicar essa inflamada acusação e declarar sua intenção de restaurar a importância das coisas que fazem a vida valer a pena – de modo que jamais saberemos se ele teria tentado transformar suas palavras em realidade caso fosse eleito presidente dos Estados Unidos, muito menos se teria obtido sucesso nisso. O que sabemos, porém, é que quase 40anos depois que desde então se passaram houve poucos sinais, se é que houve algum, de que sua mensagem teria sido ouvida, aceita e lembrada.

Zygmunt Bauman

Frase

2.9.09

Nada


A poesia abaixo de nome Nada não tem assinatura, mas foi escrita por um amigo secreto, por enquanto anônimo. Nem pedi permissão para publicar, mas acho que não terá problema. Na próxima vez acredito que poderei dar o crédito. Esta especialmente eu achei perfeita.

Ele tinha uma vida não vivida
sem memórias pra contar no dia-a-dia
com vazios que o tempo não preenche
com sentidos e razões inexistentes

A única lembrança que a ele retornava
era a falta de lembranças mais exatas
Uma vida sem nenhum fato relevante
um caminho que se faz desinteressante

Em sua falta de vivência
bate ao peito uma carência
Uma dor aperta em seu coração
mas não sabe qual motivo ou razão

A razão decerto ele conhece
mas não ousa dizer o que compete
pois a única lembrança que ele tem
é a dor de se não lembrar de ninguém

Amigo

Aquecimento

Como entender uma obra de arte? Será que é possível saber o que o artista estava pensando ou sentindo quando a produziu? A maior parte das pessoas não aprecia fotografia, pintura, gravura, escultura e até alguns estilos musicais por não achar interessante, justamente por não entender o significado. Mas o que há para entender em uma arte como essa, por exemplo?
Algumas obras causam impacto outras, nenhum. Mas o “entendimento” é pessoal, subjetivo, cada pessoa que parar em frente a uma obra de arte terá uma sensação diferente, ou não sentirão absolutamente nada. Isso porque a reação depende da bagagem cultural e das experiências individuais e coletivas vividas por cada um.
Agora, estudando a história da arte, este tema será abordado algumas vezes por aqui. Então quem gosta se prepare.
Entre tantos gêneros e estilos de arte existe uma forma diferente de se fazer arte, vamos conhecer um pouco da Op Art. Pelo nome, muita gente não tem ideia do que seja, mas é bem mais conhecido do que se imagina. A Optical Art, expressão inglesa que designa um movimento ou tendência iniciada na Europa e logo propagada aos Estados Unidos no começo da década de 1960, é um movimento artístico, que tem por objetivo dar movimento às pinturas. Essa vertente representativa da arte opõe-se à harmonia estática da forma tradicional de arte contemporânea, visando atingir ou causar a impressão de que há movimento na tela, através de estímulos visuais, a famosa ilusão de ótica. Victor Vasarely, de origem Húngara, foi o pioneiro no aprimoramento desta forma de fazer arte. Outro grande nome da Op Art é M.C. Escher, criador das obras abaixo.

A op-art é criada através da combinação de figuras geométricas, alguma vesez coloridas. A maior parte das obras são produzidas em preto e branco. Essa combinação causa o efeito de movimento conforme muda-se o ângulo de visão e o contraste é perfeito para enganar nossos olhos e cérebro. Em breve mais...

30.8.09

Fotojornalista



Em 1939, aos 11 anos de idade, o menino Flávio Silveira Damm ficou impressionado com as imagens da guerra nos jornais e quis saber do pai se eram os próprios soldados que faziam as fotos. Hoje, perto de completar 78, o fotógrafo gaúcho é um dos mais importantes profissionais da história do fotojornalismo brasileiro. Em todo esse tempo, confessa que nunca entendeu nada de futebol, mas foi num Grenal (Grêmio x Internacional) que estreou na reportagem e na primeira página de um jornal: — Cheguei cedo e estava focalizando uma arquibancada totalmente lotada quando ela sumiu do meu visor. Instintivamente, apertei o obturador e fiz as únicas fotos do desabamento de uma arquibancada inteira. Depois, saí registrando as vítimas. Vendi as fotos para a Folha da Tarde e para a extinta Revista do Globo, de Porto Alegre. Ganhei 600 cruzeiros e virei repórter mesmo, com nome no jornal. Em busca de uma boa foto, Flávio Damm fez muitas viagens (930 pelo Brasil e 65 ao exterior) e viveu muitas aventuras. Chegou a ir atrás do diabo para uma matéria para a revista O Cruzeiro — marco do fotojornalismo brasileiro — no interior de São Paulo, onde diziam que a população estava sendo aterrorizada por ele. É claro que não encontrou o sinistro personagem, mas registrou o povo amedrontado e ouviu suas histórias. Os registros, aliás, foram feitos como gosta: em preto e branco e focados no que chama de “cotidiano surreal”: — Para passar emoção a cor é desnecessária, mesmo quando há sangue. A fotografia em preto e branco exige composição, bagagem cultural e experiência, pois não convive com as facilidades que a cor oferece. Depois de 15 anos em O Cruzeiro, ao lado de José Medeiros e Jean Manzon, Flávio decidiu virar freelancer e, em 62, criou a Agência Jornalística Imagem, a primeira do gênero no Brasil. Em seis décadas de profissão, conseguiu reunir um acervo que já rendeu a publicação de 12 livros, entre os quais “Brasil futebol rei” (1965), “Ilustrações do Rio” (1970) e “Um Cândido pintor Portinari” (1971) — e apenas dois não esgotados: — Também escrevo para o site www.photos.com.br e a revista Photo Magazine, estou produzindo um livro sobre 24 reportagens que fiz para as revistas O Cruzeiro e do Globo e deixei nas mãos de editores três livros novos: uma retrospectiva, “Mulher dama” — sobre prostitutas da Bahia — e “Vejo Lisboa”. Flávio diz que não sai de casa sem uma câmera: — Tenho um arquivo com 60 mil negativos. Fotografo o que a minha leitura pede e não falo com meus fotografados antes, durante ou depois das fotos. Eles não me conhecem e eu não desejo conhecê-los. Somos anônimos e sem cara. Não uso flash e sou discreto. Faço minha aproximação como um gato e fujo da cena como um rato.
Fonte: ABI

24.8.09

Tenho tanto sentimento


Tenho tanto sentimento
Que é freqüente persuadir-me
De que sou sentimental,
Mas reconheço, ao medir-me,
Que tudo isso é pensamento,
Que não senti afinal.
Temos, todos que vivemos,
Uma vida que é vivida
E outra vida que é pensada,
E a única vida que temos
É essa que é dividida
Entre a verdadeira e a errada.
Qual porém é a verdadeira
E qual errada, ninguém
Nos saberá explicar;
E vivemos de maneira
Que a vida que a gente tem
É a que tem que pensar.

Fernando Pessoa

Um pouco de fotografia




Do mestre Sebastião Salgado. Realidade!

16.8.09

Energia

Uma das situações que mais me estimulam é ver uma pessoa executando uma tarefa com profundo prazer. Logo no primeiro dia de aula deparei-me com uma professora hiper animada, simpática, direta, objetiva e com um senso de humor delicioso. Se a primeira impressão é a que fica, virei fã de carteirinha da Cristina, profª de Língua Portuguesa. Realmente os profissionais, alunos e professores de comunicação são mais bonitos e animados. Pessoas que gostam de pessoas são iluminadas. Quem sabe lidar com gente, respeita as diferenças entre os semelhantes possui um dom divino e é dotado de uma energia mágica e transformadora. A maioria das pessoas coisificam as pessoas, tanto que encontrar alguém diferente causa estranhamento.

2.8.09

Arthur Shopenhauer - Fábula do porco-espinho


"Num frio dia de Inverno, alguns porcos-espinhos juntaram-se para se aquecerem com o calor dos seus corpos, para não enregelarem. Mas depressa viram que se estavam a picar e afastaram-se. Quando de novo ficaram com frio e se juntaram, repetiu-se a necessidade de se manterem separados até descobrirem a distância adequada a que se podem tolerar. Assim é na sociedade, onde o vazio e a monotonia fazem com que os homens se aproximem, mas os seus múltiplos defeitos, desagradáveis e repelentes, fazem com que se afastem."
Moral da fábula: "Quem tem muito calor interno prefere manter-se afastado da sociedade para não dar nem receber problemas e aborrecimentos."
Por outras palavras, toleramos a proximidade dos outros só quando é necessário à sobrevivência, evitando-a sempre que possível.
A. Shopenhauer

26.7.09

Anima Mundi

Quem curte cinema e animação não pode deixar fora do roteiro cultural uma visita ao Memorial da América Latina. Desta vez para prestigiar o festival de curtas mais aguardado do ano. O Anima Mundi é um festival internacional de animação, está em sua 17º edição e conta com vários curtas bem produzidos, divertidos e de formas gráficas bem variadas. A única parte ruim é que é muito curto (desculpe o trocadilho rs). Em São Paulo, de 22 a 26 de julho, hoje é o último dia. Se você ainda não foi, corra que vale a pena. O ambiente é agradável, relativamente confortável e os filmes são espetaculares. Esse é o 5º ano que eu acompanho algumas sessões. Apesar da chuva, é sempre divertido.

24.7.09

Fidelidade canina

Tantos livros foram publicados, principalmente, depois de Marley e eu, que fica até clichê escrever sobre os caninos. Mas eles são seres extremamente sinceros. Apesar do instinto, se eles gostam de alguém eles demonstram imediatamente, quando não, também são claros. A sensibilidade chega a ponto de perceber a tristeza ou a alegria no ar. Eles se comportam da mesma forma que nós. Ainda elegem uma pessoa preferida e ficam tão felizes quando chegamos em casa, que nos sentimos a pessoa mais importante do mundo. É tão gostoso abrir a porta e ver “alguém” sinceramente feliz. Com eles não existe mentira, ilusão, conversa fiada, eles nos ouvem, sem reclamar e sem dizer nada que nos magoe. Eu confio mais neles do que nas pessoas. Sentimentos verdadeiros e inteligência animal valem mais do que qualquer ilusão humana. Afinal, eles não fazem mal a ninguém, merecem todo o nosso respeito.

19.7.09

Se tu viesses ver-me


Se tu viesses ver-me hoje à tardinha,
A essa hora dos mágicos cansaços,
Quando a noite de manso se avizinha,
E me prendesses toda nos teus braços...
Quando me lembra: esse sabor que tinha
A tua boca... o eco dos teus passos...
O teu riso de fonte... os teus abraços...
Os teus beijos... a tua mão na minha...
Se tu viesses quando, linda e louca,
Traça as linhas dulcíssimas dum beijo
E é de seda vermelha e canta e ri
E é como um cravo ao sol a minha boca...
Quando os olhos se me cerram de desejo...
E os meus braços se estendem para ti...
Florbela Espanca

Mudam-se

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança;
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.


Camões

Traduzir-se



Uma parte de mim
é todo mundo
outra parte é ninguém
fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão
outra parte estranheza
e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera
outra parte
delira.

Uma parte de mim
almoça e janta
outra parte
se espanta.

Uma parte de mim
é permanente
outra parte
se sabe de repente.

Uma parte de mim
é só vertigem
outra parte,
linguagem.

Traduzir-se uma parte
na outra parte
- que é uma questão
de vida ou morte -
será arte?

Ferreira Gullar

Neste momento: Paris

Nasci no Brasil, meu sobrenome é italiano, tenho passaporte português, moro na Inglaterra e estou pela primeira vez na França. Hoje...