8.12.11

A ilusão



As mãos são mais rápidas que os olhos. E onde eles não estão fica ainda mais fácil de se esconder algo.
A voz baixa, um piscar de olhos lentos e o sorriso fácil. Receita testada, para se alcançar o alvo: a caça.
Uma tatuagem na nuca e um rosto bonito. Combinados com simpatia e ingenuidade. Mesmo a inteligência é ludibriada.
Simpatia, charme... por que isso nos faria mal?
Psicose, psicopatia, vício, carência, teste de persuasão ou simplesmente massagem ao ego.
Uma experiência completamente maluca. Vermos uma cena, da qual participamos outrora, sendo regravada debaixo de nossas vistas, com outros personagens. E nós de fora, invisíveis, como meros espectadores.
É assustador saber que algumas pessoas enganam e iludem outras com uma facilidade absurda. Olhos abertos e atenção distribuída de forma seletiva. Cuidado, eles estão à solta. 

Pétalas Esquecidas


Algumas coisas nos chateiam com uma facilidade absurda. O cansaço é inevitável. Muita coisa, muita informação. A cabeça parece que vai explodir. Nessas situações, nos resta ouvir a Marisa e viajar pelo nosso Infinito Particular. Onde só nós conhecemos e ninguém pode visitar e nem tomar da gente. Só eu sei o quanto é difícil. Falo, às vezes faço.. eu não pude resistir à tentação, que a rosa provocou esta grande paixão... as pétalas esquecidas... e a rosa murchou... morreu...

É muito triste. E quanto mais triste, mais triste. Mas como já foi citado nestas páginas, um amigo poeta costuma dizer: a tristeza é bela.. e eu digo que gosto desse estado, é bom de vez em quando. Só.


24.11.11

Passa e Passo

...tempo, tempo, tempo, tempo... quando eu tiver saído para fora do teu círculo... não serei nem terás sido...
Só com ele e através dele entendemos a dinâmica de alguns sentimentos e sensações.
Enquanto escrevo, ele passa. E passando, ele me traz algo novo, e de novo, e sempre. 
Uma música, um livro, um amigo, um amor. Da mesma forma que chega, quase todos se vão. Boa parte em vão. Outra deixa uma semente importante em algum aspecto.
Aspectos?! Imagem = importância.
Contudo, a imagem pode ser construída, com truques e ilusões. E o que desvendamos é pessoal. Intransferível.
A impressão e a sensação são únicas. Só eu enxergo o que eu enxergo, da forma que enxergo. Pois só eu sou eu. Redundantemente óbvio. Minhas experiências, chatices, maluquices e barreiras. Às vezes intransponíveis. Quem tem coragem se aventure, desvende. E eu devoro: romântica e intensamente. 
Enquanto ele passa, passo eu por algumas ruas e esquinas, conhecidas como vidas. E ele, cruel, leva consigo tudo o que perdemos.
... ainda assim acredito ser possível reunirmo-nos... tempo, tempo, tempo, tempo, num outro nível de vínculo. Tempo, tempo...

27.10.11

O EXEMPLO DAS ROSAS



Uma mulher queixava-se do silêncio do amante:
- Já nao gostas de mim, pois não encontras palavras para me louvar!
Então ele, apontando-lhe a rosa que lhe morria no seio:
- Não será insensato pedir a esta rosa que fale?
Não vês que ela se dá toda no seu perfume?

Manoel Bandeira

21.10.11

Fernando Sabino


A Última Crônica

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria do estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nessa busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer um flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica. Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acentuar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres equívocos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome. Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve concentrado, o pedido do homem de depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho – um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular. A negrinha contida na sua expectativa olha a garrafa de coca-cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começar a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa a um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais observa alem de mim. São três velinhas brancas minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a coca-cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente Põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “Parabéns pra você, parabéns pra você...” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura – ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. De súbito, dá comigo a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido – vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso. Assim eu quereria a minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso. 

26.6.11

Parada



Este ano a Parada do Orgulho Gay está debutando. E finalmente, tem mais uma conquista a ser comemorada. A legalização da união estável entre homossexuais é um avanço que eu não imaginei que presenciaria nesse país atrasado, de maioria ignorante e preconceituosa.
Todos os brasileiros deveriam ter participado dessa festa hoje, pois é um sinal de que nem tudo está perdido na “terra do jeitinho”. Apesar de faltar ainda muitíssimos avanços, já até consigo ver uma luz no fim do túnel.
O verbo respeitar é muito fácil de ser conjugado, mas a dificuldade que parte das pessoas encontram em executa-lo é impressionante. É tão mais fácil cada um cuidar de sua própria vida; ajudar, colaborar e/ou contribuir no que for possível para que todos vivamos melhor. Mas o esporte preferido dessa gente é tentar fazer com que todas as pessoas pensem e ajam de acordo com os SEUS pensamentos e costumes. Julgar o outro conforme a minha vida, minhas preferências e experiências, não faz o menor sentido. Cada um sabe o que é melhor para si, ou pelo menos deveria saber.
O que o povo verde e amarelo não percebe é que para os heterossexuais nada mudou. Ninguém vai ser obrigado a casar com o vizinho, nem sair do armário se não quiser.
O Brasil só vai começar a mudar de verdade quando forem plantadas nessas terras: educação, alteridade e respeito. Uma coisa leva à outra automaticamente. E devemos começar pelas crianças, que serão responsáveis pelas próximas gerações e pelo futuro da sociedade. Quem sabe esse país deixaria de ser medíocre, cheio de gente egoísta, que explora a miséria do outro. Assim, conseqüentemente, eliminaríamos os corruptos, os bandidos de colarinho branco, a violência, etc. Não teríamos mais crianças semi-analfabetas sem oportunidades, e deixaríamos de ser um povo sem dignidade.
Utopia?! Talvez. Mas devagar, se vai ao longe... 

19.6.11

A perdida esperança


De posse deste amor que é, no entanto, impossível
Este amor esperado e antigo como as pedras
Eu encouraçarei o meu corpo impassível
E à minha volta erguerei um alto muro de pedras.

E enquanto perdurar tua ausência, que é eterna
Por isso que és mulher, mesmo sendo só minha
Eu viverei trancado em mim como no inferno
Queimando minha carne até sua própria cinza.

Mas permanecerei imutável e austero
Certo de que, de amor, sei o que ninguém soube
Como uma estátua prisioneira de um castelo
A mirar sempre além do tempo que lhe coube.

E isento ficarei das antigas amadas
Que, pela Lua cheia, em rápidas sortidas
Ainda vêm me atirar flechas envenenadas
Para depois beber-me o sangue das feridas.

E assim serei intacto, e assim serei tranqüilo
E assim não sofrerei da angústia de revê-las
Quando, tristes e fiéis como lobas no cio
Se puserem a rondar meu castelo de estrelas.

E muito crescerei em alta melancolia
Todo o canto meu, como o de Orfeu pregresso
Será tão claro, de uma tão simples poesia
Que há de pacificar as feras do deserto.

Farto de saber ler, saberei ver nos astros
A brilharem no azul da abóbada no Oriente
E beijarei a terra, a caminhar de rastros
Quando a Lua no céu contar teu rosto ausente.

Eu te protegerei contra o Íncubo
Que te espreita por trás da Aurora acorrentada
E contra a legião dos monstros do Poente
Que te querem matar, ó impossível amada!

Vinícius de Moraes

17.6.11

Em nossa rádio

Quando sentimos muito carinho por alguém, mesmo conhecendo há pouco, literalmente, tomamos as dores do outro. Por que será que o criador do nosso mundo permite que certas coisas aconteçam?  Já que era para passarmos por tanto sofrimento, que ao menos nos fizesse mais resistentes. Essa brincadeira chega a ser sádica.
Uma - talvez a única - certeza que temos é que tudo isso é passageiro. Para nossa insatisfação, sabemos que os momentos bons findam depressa, e para nosso relativo conforto, temos ciência que o sofrimento também esmorece, mesmo nos parecendo infinito.
Não nos é possível mensurar a tristeza, ou medir a intensidade da alegria, mas por vezes, só de nos colocarmos no lugar do outro, temos a sensação de que não resistiríamos a tamanhas provações. A tristeza é tão contagiosa quanto a alegria é contagiante.
A pessoa que me diverte todas as tardes, hoje, não sorria. Ao ver a profunda aflição que dominou seus olhos, senti na minha alma a dor da sua.
Diante de nossa impotência, só me resta torcer pra que a melancolia acabe logo e que voltemos a desfrutar dos nossas boas horinhas, até que isso também acabe. Como já dizia um dos meus poetas preferidos: “Que não seja imortal, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure.” E que as alegrias durem mais!
"Irmã, é tudo com nóis!"

1.5.11

Opções



Você já parou pra pensar que sua vida foi e sempre será totalmente baseada em opções? Esse emprego ou aquele? Este curso ou o outro? Onde estudar? Estudar? Telefono ou não? Digo ou não digo? Escrevo?
Em todas as áreas, todos os sentidos: desde o que comer até a pessoa que escolhemos para compartilhar de nosso mundo. Não existe uma pessoa igual à outra, e nunca existirá. As experiências são únicas, não se repetem. Além disso, cada individuo absorve de maneira muito particular cada situação vivida, ou não vivida. E quando as opções alheias interferem de forma significativa em nossa vida, quando não nos cabe optar, é muito mais triste.

Liv Ullmann, em outra obra autobiográfica – altamente sensível e introspectiva – reflete sobre a arte das Opções. Enquanto visita pessoas sem nenhuma opção na vida, Liv depara-se com o que há de mais grave e mais triste no mundo: a miséria, completa e absoluta.
Só de pensar que no mesmo instante em que ocorre um Casamento Real, por exemplo, milhares de pessoas, incluindo principalmente crianças, sofrem e morrem de desnutrição pelo mundo.
O que será deveras importante nesse mundinho de meu deus? O individualismo impera em todos os âmbitos da sociedade. 

** Norueguesa, nascida em 16 de dezembro de 1939, no Japão, Liv Ullmann é atriz e diretora de cinema, Embaixadora da UNICEF e diretora honorária da Universidade de Ciência e Tecnologia da Noruega. Foi musa do genial diretor Ingmar Bergman (1918-2007), com quem foi casada durante 5 anos e teve uma filha. Além de protagonizar e dirigir vários filmes, Liv escreveu dois livros autobiográficos: Mutações (1975) e Opções (1985). 

23.4.11

Metas, o impulso dos indivíduos

*Por Flávio Gikovate


Não creio que se possa falar em liberdade quando nos referimos às pessoas que têm que se manter ocupadas, perseguindo objetivos sofisticados e percebidos como grandiosos, através dos quais obterão destaque social, capaz de satisfazer sua vaidade. Ao contrário, parecem que fogem desesperadamente de um confronto consigo mesmo e, principalmente, da consciência mais clara que podem ter acerca da condição humana.

Os que são bem sucedidos através deste caminho, só o são aos olhos das outras pessoas, pois a própria conquista dos objetivos propostos impulsiona o indivíduo de volta para as questões das quais tentou se esconder. Desta forma, é bastante comum o surgimento de distúrbios hipocondríacos, medo da morte, depressões de todo o tipo, exatamente quando o indivíduo chega próximo de suas metas, condição na qual poderá ter mais tempo livre e menos necessidade de se preocupar de modo obsessivo com seus planos práticos. Ou seja, justamente quando estaria chegando a hora de se poder usufruir dos benefícios obtidos pela luta desenfreada, surgem obstáculos insuspeitados capazes de levar o indivíduo para um estado emocional lastimável. 

Se no processo de exercer sua energia física e mental para atingir objetivos pessoais o indivíduo oprime terceiros, não creio que seja esta a intenção primeira e deliberada; apenas não pode deixar de batalhar para chegar onde se propôs. Não creio na existência de uma efetiva tendência agressiva e destrutiva no ser humano, apesar de que a prática nos mostra que as relações humanas têm, na maior parte do tempo, manifestações que poderiam ser interpretadas dessa forma. Acredito, isto sim, que os chamados opressores são criaturas desesperadas, conscientes de coisas que elas não suportam e obrigadas a agir obstinadamente para atenuar o seu próprio desespero. Os mais fracos, os oprimidos, sofrem as conseqüências desta forma de ser dos opressores de modo direto e simples; porém seria ilusório supor que os opressores estejam vivendo bem, estejam com tudo. 

Assim, a necessidade de progredir cada vez mais, de refazer novos e mais complexos projetos de evolução na direção que encaminharam suas vidas me parece um imperativo para estas pessoas – e, é claro, para as sociedades e esquemas econômicos que nelas se estabelecem – ainda quando tal progresso já seja percebido como absolutamente sem fundamento na realidade. Só a título de exemplo, um industrial bem sucedido poderá duplicar sua fábrica, à custa de sacrifícios e apertos financeiros, apesar de que os resultados materiais desta expansão já não serão necessários nem para o sustento de seus netos. 

Os mais dotados de inteligência, no afã de atenuar seu desespero, oprimem, direta ou indiretamente, a maioria das populações. Mas o resultado observável é que estas pessoas também acabam agindo como carrascos de si mesmas, levando uma vida tão ou mais sofrida do que aqueles a quem oprimem (salvo, é claro, pelo aspecto das comodidades materiais que funcionam mais ou menos como um prêmio de consolação). Desta maneira, podemos afirmar que ninguém está vivendo realmente bem, que ninguém está efetivamente convencido de que seu modo de ser foi decidido através de uma opção livre. 

A dar crédito para estas observações seríamos forçados a supor que o primeiro passo para o encaminhamento da questão da liberdade humana consistiria na aceitação dócil e não ressentida da insignificância de nossa condição. O desespero derivado desta constatação deveria ser vivido até a exaustão e não atenuado artificialmente através de drogas, de trabalho e ocupação intelectual obscecante, da busca de riquezas e destaques sociais cada vez maiores.


*Dr. Flávio Gikovate, médico psicoterapeuta

13.4.11

Saramago

"Deus, o demônio, o bem, o mal, tudo isso está em nossa cabeça, não no céu ou no inferno, que também inventamos. Não nos damos conta de que, tendo inventado Deus, imediatamente nos tornamos Seus escravos". Saramago

Caim – como já foi citado, quando lançado, neste espaço virtual - reconta a estória dos irmãos Caim e Abel, (e claro!) sob a óptica do ateu José Saramago.
Carregado de ironia e bom humor, Saramago aponta “deus como o autor intelectual do crime” cometido por Caim. O primogênito mata seu meio irmão, como insinua o autor, e divide sua culpa com ninguém menos que deus. Depois de um acordo firmado por ambos, o protagonista viaja pelo tempo e pelo mundo presenciando “fatos” como a destruição de Sodoma e Gomorra e a queda da Torre de Babel. A narrativa se desenvolve desde Adão e Eva até Noé e sua arca.

A certa altura, o autor escreve: “O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia de viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que vou at lá adiante com o menino para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com sua língua bífida, que neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes”.

(Caim, José Saramago)

5.4.11

Vem, que eu ainda espero, vem...

Vai sim, vai ser sempre assim
A sua falta vai me incomodar,
E quando eu não agüentar mais
Vou chorar baixinho, pra ninguém ouvir.
Vai sim, vai ser sempre assim,
Um pra cada lado, como você quis
E eu vou me acostumar,
Quem sabe até gostar de mim.
Mesmo que eu tenha que mudar
Móveis e lembranças do lugar,
O meu olhar ainda vê o seu
Me devorando bem devagar.
Vem, que eu ainda quero, vem.
Quando menos espero a saudade vem
E me dá essa vontade, vem
Que eu ainda sinto frio
Sem você é tudo tão vazio
Vem me dar essa vontade,
Vem que esse amor ainda é meu.
Troco todos os meus planos por um beijo seu
E essa noite pode terminar bem.
Luiza Possi e Dudu Falcão


30.3.11

Soneto do amor eterno


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes e com tal zelo, e sempre e tanto
que mesmo em face do maior encanto
dele se encante mais meu pensamento.
Quero vive-lo em cada vão momento
e em seu louvor hei de espalhar meu canto
e rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou ao seu contentamento.
E assim quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angustia de quem vive
quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor que tive:
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes

26.3.11

A Brincadeira

Algumas vezes estamos egoistamente preocupados com nossos próprios umbigos e esquecemos que algumas atitudes - ou a falta delas - afetam outras pessoas. 

Por nos esquecermos que não devemos despejar palavras aleatoriamente aos ouvidos de outrem, magoamos de forma gratuita quem dizemos querer bem. Pior, talvez, que a falta de comunicação é o excesso de palavras que são apenas palavras. Soltas e levianas.

Em sua obra intitulada A Brincadeira, Milan Kundera conta a história de Ludvik, um homem de meia idade que passa um final de semana na cidade onde nasceu e passou sua infância. Suas lembranças e de outros personagens se entrecruzam e mostram a dificuldade da comunicação humana.

Kundera recebeu em 1968 o prêmio anual da União de Escritores Tchecos pela obra intitulada A Brincadeira, publicada em Praga na Primavera de 1967. O romance vendeu mais de 120 mil cópias, esgotando três edições sucessivas. Porém, dois meses depois de seu lançamento no Ocidente o livro ganhou uma conotação política muito mais forte do que a pretendida pelo autor, fazendo com que a obra fosse tirada de circulação por algum tempo.

Trechos interessantes:
“Nem antes nem depois desse episódio li versos para quem quer que fosse; possuo um pequeno sistema que funciona bem, um fusível de pudor, que impede que eu me desnude demais diante das pessoas, revelando meus sentimentos; ora, ler versos, para mim, não é apenas como se eu falasse de meus sentimentos, mas como se ao fazê-lo, ficasse equilibrado num pé só; como se alguma coisa de compassado, no próprio princípio do ritmo e da rima, me embaraçasse tanto que para fazê-lo precisasse estar só. Mas Lucie possuía um poder mágico (que depois dela nunca mais ninguém teve) de fazer funcionar o fusível e desfazer meus escrúpulos. Diante dela, eu podia me permitir tudo: mesmo a sinceridade, o sentimento, o patético”.

(...) “Caminhei sobre os paralelepípedos poeirentos e senti a pesada leveza do vazio que pesava sobre minha vida: Lucie, a deusa das brumas que outrora se recusara a ser minha, ontem tinha transformado em nada minha vingança cuidadosamente premeditada e logo depois mudou até a lembrança de si mesma numa espécie de zombaria aflitiva ou de impostura grotesca, já que as revelações de Kostka comprovavam que durante todos esse anos eu me recordara de uma outra mulher, que na realidade eu nunca soubera quem era Lucie”.

(A Brincadeira, Milan Kundera)

15.3.11

A Cabana

Como já foi citado outrora nesta página virtual existem livros que realmente não são possíveis de ler até o final. Não sou especialista em literatura, mas sou leitora assídua e admiradora de belas obras de arte.
A Cabana esteve em 1º lugar na lista dos mais vendidos do The New York Times, e já vendeu mais de 12 milhões de exemplares. O que isso deveria significar? Que é um bom livro? Deveria ser. Mas com o perdão de quem gostou, essa não é uma obra que merecesse tal posto, nem de longe. Para quem não está acostumado a ler - ou nunca teve sequer um contato mínimo com os clássicos da literatura universal, ou mesmo nacional - pode até ser, talvez, atrativo.
O referido conta a estória de Mack Allen Phillips, um homem que teve sua filha de seis anos raptada durante um acampamento de fim de semana. A menina nunca foi encontrada, mas sinais de que ela teria sido assassinada são achados em uma cabana perdida nas montanhas. Quatro anos depois, Mack recebe um bilhete supostamente escrito por Deus, convidando-o para uma visita a essa mesma cabana.
Daí em diante só lendo para ter a dimensão do quanto o livro é absurdo. Desde a forma que William P. Young escolheu para relatar a ficção até o conteúdo forçosamente questionável e duvidoso.
Resisti bravamente a questão da escrita redundante e carregada de detalhes completamente desnecessários até certa página, mas depois de Deus se apresentar ao personagem como uma mulher negra e gorda que só fazia cozinhar; Jesus, carpinteiro, oriundo do Oriente Médio; e uma outra mulher asiática, ao que me parece, era o espírito santo. Aí foi demais pra mim.
Auto ajuda de cunho religioso, acompanhada de diálogos pobres, questionamentos respondidos de forma totalmente descabida, foi mais do que eu conseguiria suportar.
A trama inicial foi esquecida, a única coisa que importava era que o protagonista perdoasse e se livrasse da tristeza pelo ocorrido. Mas até que ponto é saudável perdoar o sujeito que lhe causou a maior dor que se poderia imaginar? É surreal compreender, justificar ou aceitar tal atrocidade.
Mensagens positivas são sempre bem vindas, mas que não tentem explicar o inexplicável de forma tão rasa e alienante.
O pior é que nas últimas linhas de tal esparrela encontra-se um apelo no estilo “corrente da internet”. Essa realmente foi uma das piores obras que passaram por minhas mãos. Mais um desperdício.
É tão bom voltar ao mundo real. Encerrada precocemente essa tentativa de leitura deparo-me com Milan Kundera. Ufa, que alívio! Esse sim renderá boas linhas neste espaço.

10.3.11

Tristeza

Todos os dias muitas pessoas são convocadas para o próximo nível desse joguinho de vídeo game mais conhecido como vida. Essa semana mais duas crianças perderam uma avó. Dois jovens perderam a mãe, uma moça perdeu a madrinha. Irmãs, tias, primas. Em uma família de muitas mulheres uma se foi. Ela, que não teve uma vida fácil em toda a sua extensão, em nenhum sentido, nos deixou ainda jovem. Uma pessoa divertida e de sorriso fácil. Ultimamente, ao que me consta, estava feliz, aproveitando a vida.

É muito difícil lidar com a morte. Procuro nem pensar muito sobre o assunto, mas quando alguém perto de nós nos deixa o choque é inevitável.

É muito triste saber que todos vamos um dia, porque quem fica, na grande maioria das vezes, não está preparado para enfrentar a ausência. Quem foi, certamente está melhor do que quem fica e pelo menos isso nos conforta.

Sinto pena de quem sente culpa ou remorso por atitudes equivocadas para com quem acaba de partir. Por ignorância, a lição não foi aprendida, mas a vida uma hora apresenta a conta a ser paga. E é isso que assusta.

Que a tristeza de quem se vê agora sem chão, não seja tão dura. Que ela saiba que é preciso continuar, pois duas lindas criaturinhas dependem da força de uma só. Que essa força seja verdadeira e permanente. Que ela saiba que independente de qualquer coisa, ela não está sozinha.

21.2.11

Lya Luft

"Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade. Puta que pariu, não é assim. Isso não existe. É um erro pensar assim. Eu sou uma mulher. Faço tudo de mulher, como mulher. Mas não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isso de homens com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. Eu fico puta da vida com isso. Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem."

Escritora, nascida em Santa Cruz do Sul - Rio Grande Do Sul em 1938. Estudou pedagogia e letras anglo-germânicas em Porto Alegre. Lya Luft iniciou sua vida literária como tradutora de obras em alemão e inglês, na década de 60.

A autora é conhecida por sua luta contra os estereótipos sociais. Principalmente os femininos, como a obrigação das mulheres de manterem-se jovens até o fim da vida. Ela diz que quando chegar aos 80 anos não quer ter uma alma jovem, e sim ser uma mulher de 80 anos lúcida e elegante. Uma de suas críticas diz respeito às cirurgias plásticas de inteira inutilidade e o rumo que estamos tomando. "Na ambição de serem sempre jovens, as mulheres acabam perdendo o próprio rosto. São os falsos mitos da juventude para sempre. E isso também inclui a febre atual da mídia, particularmente nas revistas femininas”.

“São fórmulas de um mundo conturbado, que foge ao afeto, distante de qualquer felicidade”.

Outra de suas passagens interessantes é: "Sou dos escritores que não sabem dizer coisas inteligentes sobre seus personagens, suas técnicas ou seus recursos. Naturalmente, tudo que faço hoje é fruto de minha experiência de ontem: na vida, na maneira de me vestir e me portar, no meu trabalho e na minha arte. Não escrevo muito sobre a morte: na verdade ela é que escreve sobre nós - desde que nascemos vai elaborando o roteiro de nossa vida. O medo de perder o que se ama faz com que avaliemos melhor muitas coisas. Assim como a doença nos leva a apreciar o que antes achávamos banal e desimportante, diante de uma dor pessoal compreendemos o valor de afetos e interesses que até então pareciam apenas naturais: nós os merecíamos, só isso. Eram parte de nós. O amor nos tira o sono, nos tira do sério, tira o tapete debaixo dos nossos pés, faz com que nos defrontemos com medos e fraquezas aparentemente superados, mas também com insuspeitada audácia e generosidade. E como habitualmente tem um fim - que é dor - complica a vida. Por outro lado, é um maravilhoso ladrão da nossa arrogância. Quem nos quiser amar agora terá de vir com calma, terá de vir com jeito. Somos um território mais difícil de invadir, porque levantamos muros, inseguros de nossas forças disfarçamos a fragilidade com altas torres e ares imponentes. A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranqüilidade, querer com mais doçura. Às vezes é preciso recolher-se”.

Lya Luft

15.2.11

O ciúme


Minha melhor lembrança é esse instante no qual

Pela primeira vez me entrou pela retina

Tua silhueta provocante e fina

Como um punhal.

Depois, passaste a ser unicamente aquela

Que a gente se habitua a achar apenas bela

E que é quase banal.

E agora que te tenho em minhas mãos e sei

Que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos

Que os teus sentidos são cinco brinquedos

Com que brinquei;

Agora que não mais me és inédita, agora

Que compreendo que tal como te vira outrora

Nunca mais te verei;

Agora que de ti, por muito que me dês,

Já não podes dar a impressão que me deste,

A primeira impressão que me fizeste,

Louco, talvez,

Tenho ciúme de quem não te conhece ainda

E, cedo ou tarde, te verá, pálida e linda pela

Primeira vez.

Guilherme de Almeida

25.1.11

Morena dos olhos d'água

Cenário perfeito, luz, vozes, violão, Chico, Léo, céu, mar, olhos, lembranças... um deleite para os olhos, ouvidos e coração.

21.1.11

Tudo novo de novo...



É impressionante como a vida pode ser generosa. Quando pensamos estar perdidos a resposta chega com tanta naturalidade que até impressiona. O novo tem um sabor delicioso, o frescor é tão irresistível que às vezes precisamos de calma pra não atropelar tudo. Uma boa conversa é a chave do negócio. Bons amigos são indispensáveis, o dispensável deve ser dispensado mesmo, só assim experimentamos o gostinho da “liberdade”. Conviver só com quem vale à pena, quem nos valoriza e principalmente respeita. Algumas pessoas chegam do nada, sorrateiras e ficam, outras são efêmeras. Mas até essas deixam algo significativo. Poucas são dignas de minha admiração e ultimamente tenho mais motivos e mais pessoas pra admirar e finalmente me encontrei em algumas delas. Só tenho a agradecer ao universo, destino, à vida, deus, ou seja lá quem for que tem me proporcionado tantas alegrias.

Neste momento: Paris

Nasci no Brasil, meu sobrenome é italiano, tenho passaporte português, moro na Inglaterra e estou pela primeira vez na França. Hoje...