"Deus, o demônio, o bem, o mal, tudo isso está em nossa cabeça, não no céu ou no inferno, que também inventamos. Não nos damos conta de que, tendo inventado Deus, imediatamente nos tornamos Seus escravos". Saramago
Caim – como já foi citado, quando lançado, neste espaço virtual - reconta a estória dos irmãos Caim e Abel, (e claro!) sob a óptica do ateu José Saramago.
Carregado de ironia e bom humor, Saramago aponta “deus como o autor intelectual do crime” cometido por Caim. O primogênito mata seu meio irmão, como insinua o autor, e divide sua culpa com ninguém menos que deus. Depois de um acordo firmado por ambos, o protagonista viaja pelo tempo e pelo mundo presenciando “fatos” como a destruição de Sodoma e Gomorra e a queda da Torre de Babel. A narrativa se desenvolve desde Adão e Eva até Noé e sua arca.
A certa altura, o autor escreve: “O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia de viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que vou at lá adiante com o menino para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com sua língua bífida, que neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes”.
(Caim, José Saramago)

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