4.3.18

Neste momento: Paris



Nasci no Brasil, meu sobrenome é italiano, tenho passaporte português, moro na Inglaterra e estou pela primeira vez na França.

Hoje é dia 06 de fevereiro e neste momento, às 9h da amanhã, começo a viver a segunda parte de um sonho: viajar pelo mundo.

O universo tem sido muito bom comigo, desde sempre, mas nos últimos tempos tenho a impressão de que alguém lá em cima debruçou-se sobre minha história e, com muito amor e dedicação, começou a me escrever um novo capítulo. Daqueles dignos de roteiro de Hollywood, com reviravoltas inimagináveis, clímax, muita emoção, cenário, personagens e passeios incríveis.

20 minutos antes de chegar ao meu destino, o "piloto" do trem nos avisa em francês e depois em inglês, idiomas que eu não domino ainda, que estamos nos aproximando do final dessa viagem. Viagem esta, que para mim está só começando, neste momento.

Saio de uma temperatura de 2° com um sol que só cumpre a função de iluminar (o que já é uma grande coisa) e sou recebida por - 4°, neve e céu cinza.

Sozinha com minha coragem/insanidade/desassossego, desembarco em Paris. Só de imaginar aquelas ruas frias e tão cheias de arte e história, meus olhos se enchem d'agua.

É inexplicável a emoção que me toma neste momento. Por ser Paris, por viver essa nova fase e por estar sozinha. Chego com meus pensamentos e minha história, que é minha, particular e pessoal, redundante assim.

Uma brasileira, de origem simples  e sem grandes ambições, desembarcando em Paris com um frio na barriga tão grande quanto a felicidade que me toma neste momento e o frio real que me aguarda lá fora.

Repito, propositalmente, a expressão "neste momento" porque este momento é absolutamente espetacular. Ainda mais sabendo que estou gastando no máximo o dinheiro que ganho em dois dias de trabalho.

Crianças, jovens de cabelos rosa e de dreads, casais, mulheres sozinhas, macacões e velhos passeiam pelos corredores estreitos calmamente. E eu: observo.

Pela janela do trem, o branco do céu se mistura ao branco do chão congelado e a linha do horizonte só é visivel em razão das árvores altas que mostram um pouco do seu verde em meio a imponência da paisagem. Só a silhueta.

Minha vizinha de poltrona parece uma personagem de filme, levemente caricata. Um pouco gordinha, óculos pretos, cabelos sutilmente desgrenhados (próprios dos cacheados negros). Agarrada às suas coisas ( bolsas e casaco) como quem teme saírem voando. Simpática, dirigiu-me muitos "sorry" e sorrisos enquanto se ajeitava cheia de coisas a baterem nas minhas pernas. "Don't worry, no problem", digo sorridente com meu inglês raso como um pires. Não que o português seja assim tão profundo rs.



Ao desembarcar, sem saber para que lado caminhar (já que nasci sem senso de direção) me vi entre prédios e paisagens que muito me lembraram minha nova terra, Londres. Mas, depois de um café, começo a descobrir suas ruas e me deparo com um charme diferente. Único. A comparação é inevitável, mas que minha rainha me perdoe. Paris tem uma atmosfera  diferente, própria. Mesmo com a neve que caiu incansavelmente por todo o dia pude perceber o deslumbre daquelas ruas.

O passeio se deu no interior de alguns ônibus e em parte caminhando sobre e sob a neve, até o quase congelamento literal do me ser. Nem minhas mãos roxas e pés duros tiraram o prazer e a emoção que senti ao caminhar por aquelas ruas. Depois de contemplar a neve só pela janela em Londres, eis que agora fico com o casaco coberto de gelo.

O idioma me fez escorregar tanto quanto minhas botas na neve. Mas o pouco que consegui ver dessa cidade deslumbrante, no meu passeio de um dia, me fez ter a certeza de que voltarei outras vezes. Muitas. Como amante apaixonada que sou... até o dia em que poderei chamá-la de minha.

Na volta pra casa sofri uma pequena pane mental. Depois de algumas perguntas, em tom simpático e gracioso, o bonito policial que pediu meu passaporte, me despertou uma questão profunda, psicológica e quase filosófica. Coinscidentemente, sobre a primeira frase desse texto, iniciado as 9h da manhã.

Ao abrir meu passaporte ele me diz: bom dia. Em Português. Eu sorrio e respondo: bom dia (apesar de ser quase 9h da noite). Em seguida me pergunta: "Parlez-vous français?" Digo que não. Ele me olha nos olhos e pergunta: Brazilian or Portuguese? Respondo, já não lembro se em inglês ou Português, que nasci no Brasil e tenho nacionalidade Portuguesa por causa da minha família. Ele franze as sobrancelhas e pergunta: where do you live? Eu sorrio abertamente e quase sem acreditar ainda na resposta digo: I live in London. I'm coming back home.

Ele continua com o gracejo confuso: so, you speak English. E eu; I'm trying, learning.
Ele sorri com mais graça e diz: ok. Obrigado. Eu respondo: thank you. E sigo com suas perguntas na cabeça até a fila do raixo x.

Quando nem a gente acredita direito na nossa realidade, qualquer questionamento normal em uma fila de imigração nos faz filosofar e perguntar: é sério isso? Sei  que é estranho moço, minha ficha não caiu ainda. Mas, sim. Estou voltando pra casa. Pra minha cama quentinha no aconchego da minha família. Depois de realizar um sonho, que há anos, nem ousava acreditar que poderia acontecer. Com direito a neve e cenário de filme. O filme perfeito que é a minha vida.

O universo tem sido muito bom comigo.

Na volta pra casa, depois  de alguns olhares franceses dos quais só pude compreender os  sorrisos e o "madmoselle", eis que senta-se ao meu lado um senhor extremamente elegante. Com um ar de intelectual francês e postura de lorde inglês, carregando alguns aparelhos tecnológicos e um exemplar do bom e velho jornal impresso. Gutenberg sorri.

Ele parece tão inalcansável em sua postura segura e firme enquanto lê, que nem mesmo se eu falasse bem inglês puxaria assunto. Vontade não me faltava. Gosto de imaginar o universo de cultura que ele carrega consigo. Gostaria de envelhecer com esse ar, charme, elegância e postura. Quem me dera rs...

Europa, sua linda: prazer em conhecê-la. Estamos só começando nossa história de amor. Agora que temos a oportunidade de nos conhecernos vou visitar cada cantinho seu, com um prazer indescritível.




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Nasci no Brasil, meu sobrenome é italiano, tenho passaporte português, moro na Inglaterra e estou pela primeira vez na França. Hoje...