21.2.11

Lya Luft

"Não existe isso de homem escrever com vigor e mulher escrever com fragilidade. Puta que pariu, não é assim. Isso não existe. É um erro pensar assim. Eu sou uma mulher. Faço tudo de mulher, como mulher. Mas não sou uma mulher que necessita de ajuda de um homem. Não necessito de proteção de homem nenhum. Essas mulheres frageizinhas, que fazem esse gênero, querem mesmo é explorar seus maridos. Isso entra também na questão literária. Não existe isso de homens com escrita vigorosa, enquanto as mulheres se perdem na doçura. Eu fico puta da vida com isso. Eu quero escrever com o vigor de uma mulher. Não me interessa escrever como homem."

Escritora, nascida em Santa Cruz do Sul - Rio Grande Do Sul em 1938. Estudou pedagogia e letras anglo-germânicas em Porto Alegre. Lya Luft iniciou sua vida literária como tradutora de obras em alemão e inglês, na década de 60.

A autora é conhecida por sua luta contra os estereótipos sociais. Principalmente os femininos, como a obrigação das mulheres de manterem-se jovens até o fim da vida. Ela diz que quando chegar aos 80 anos não quer ter uma alma jovem, e sim ser uma mulher de 80 anos lúcida e elegante. Uma de suas críticas diz respeito às cirurgias plásticas de inteira inutilidade e o rumo que estamos tomando. "Na ambição de serem sempre jovens, as mulheres acabam perdendo o próprio rosto. São os falsos mitos da juventude para sempre. E isso também inclui a febre atual da mídia, particularmente nas revistas femininas”.

“São fórmulas de um mundo conturbado, que foge ao afeto, distante de qualquer felicidade”.

Outra de suas passagens interessantes é: "Sou dos escritores que não sabem dizer coisas inteligentes sobre seus personagens, suas técnicas ou seus recursos. Naturalmente, tudo que faço hoje é fruto de minha experiência de ontem: na vida, na maneira de me vestir e me portar, no meu trabalho e na minha arte. Não escrevo muito sobre a morte: na verdade ela é que escreve sobre nós - desde que nascemos vai elaborando o roteiro de nossa vida. O medo de perder o que se ama faz com que avaliemos melhor muitas coisas. Assim como a doença nos leva a apreciar o que antes achávamos banal e desimportante, diante de uma dor pessoal compreendemos o valor de afetos e interesses que até então pareciam apenas naturais: nós os merecíamos, só isso. Eram parte de nós. O amor nos tira o sono, nos tira do sério, tira o tapete debaixo dos nossos pés, faz com que nos defrontemos com medos e fraquezas aparentemente superados, mas também com insuspeitada audácia e generosidade. E como habitualmente tem um fim - que é dor - complica a vida. Por outro lado, é um maravilhoso ladrão da nossa arrogância. Quem nos quiser amar agora terá de vir com calma, terá de vir com jeito. Somos um território mais difícil de invadir, porque levantamos muros, inseguros de nossas forças disfarçamos a fragilidade com altas torres e ares imponentes. A maturidade me permite olhar com menos ilusões, aceitar com menos sofrimento, entender com mais tranqüilidade, querer com mais doçura. Às vezes é preciso recolher-se”.

Lya Luft

15.2.11

O ciúme


Minha melhor lembrança é esse instante no qual

Pela primeira vez me entrou pela retina

Tua silhueta provocante e fina

Como um punhal.

Depois, passaste a ser unicamente aquela

Que a gente se habitua a achar apenas bela

E que é quase banal.

E agora que te tenho em minhas mãos e sei

Que os teus nervos se enfeixam todos em meus dedos

Que os teus sentidos são cinco brinquedos

Com que brinquei;

Agora que não mais me és inédita, agora

Que compreendo que tal como te vira outrora

Nunca mais te verei;

Agora que de ti, por muito que me dês,

Já não podes dar a impressão que me deste,

A primeira impressão que me fizeste,

Louco, talvez,

Tenho ciúme de quem não te conhece ainda

E, cedo ou tarde, te verá, pálida e linda pela

Primeira vez.

Guilherme de Almeida

Neste momento: Paris

Nasci no Brasil, meu sobrenome é italiano, tenho passaporte português, moro na Inglaterra e estou pela primeira vez na França. Hoje...