23.4.11

Metas, o impulso dos indivíduos

*Por Flávio Gikovate


Não creio que se possa falar em liberdade quando nos referimos às pessoas que têm que se manter ocupadas, perseguindo objetivos sofisticados e percebidos como grandiosos, através dos quais obterão destaque social, capaz de satisfazer sua vaidade. Ao contrário, parecem que fogem desesperadamente de um confronto consigo mesmo e, principalmente, da consciência mais clara que podem ter acerca da condição humana.

Os que são bem sucedidos através deste caminho, só o são aos olhos das outras pessoas, pois a própria conquista dos objetivos propostos impulsiona o indivíduo de volta para as questões das quais tentou se esconder. Desta forma, é bastante comum o surgimento de distúrbios hipocondríacos, medo da morte, depressões de todo o tipo, exatamente quando o indivíduo chega próximo de suas metas, condição na qual poderá ter mais tempo livre e menos necessidade de se preocupar de modo obsessivo com seus planos práticos. Ou seja, justamente quando estaria chegando a hora de se poder usufruir dos benefícios obtidos pela luta desenfreada, surgem obstáculos insuspeitados capazes de levar o indivíduo para um estado emocional lastimável. 

Se no processo de exercer sua energia física e mental para atingir objetivos pessoais o indivíduo oprime terceiros, não creio que seja esta a intenção primeira e deliberada; apenas não pode deixar de batalhar para chegar onde se propôs. Não creio na existência de uma efetiva tendência agressiva e destrutiva no ser humano, apesar de que a prática nos mostra que as relações humanas têm, na maior parte do tempo, manifestações que poderiam ser interpretadas dessa forma. Acredito, isto sim, que os chamados opressores são criaturas desesperadas, conscientes de coisas que elas não suportam e obrigadas a agir obstinadamente para atenuar o seu próprio desespero. Os mais fracos, os oprimidos, sofrem as conseqüências desta forma de ser dos opressores de modo direto e simples; porém seria ilusório supor que os opressores estejam vivendo bem, estejam com tudo. 

Assim, a necessidade de progredir cada vez mais, de refazer novos e mais complexos projetos de evolução na direção que encaminharam suas vidas me parece um imperativo para estas pessoas – e, é claro, para as sociedades e esquemas econômicos que nelas se estabelecem – ainda quando tal progresso já seja percebido como absolutamente sem fundamento na realidade. Só a título de exemplo, um industrial bem sucedido poderá duplicar sua fábrica, à custa de sacrifícios e apertos financeiros, apesar de que os resultados materiais desta expansão já não serão necessários nem para o sustento de seus netos. 

Os mais dotados de inteligência, no afã de atenuar seu desespero, oprimem, direta ou indiretamente, a maioria das populações. Mas o resultado observável é que estas pessoas também acabam agindo como carrascos de si mesmas, levando uma vida tão ou mais sofrida do que aqueles a quem oprimem (salvo, é claro, pelo aspecto das comodidades materiais que funcionam mais ou menos como um prêmio de consolação). Desta maneira, podemos afirmar que ninguém está vivendo realmente bem, que ninguém está efetivamente convencido de que seu modo de ser foi decidido através de uma opção livre. 

A dar crédito para estas observações seríamos forçados a supor que o primeiro passo para o encaminhamento da questão da liberdade humana consistiria na aceitação dócil e não ressentida da insignificância de nossa condição. O desespero derivado desta constatação deveria ser vivido até a exaustão e não atenuado artificialmente através de drogas, de trabalho e ocupação intelectual obscecante, da busca de riquezas e destaques sociais cada vez maiores.


*Dr. Flávio Gikovate, médico psicoterapeuta

13.4.11

Saramago

"Deus, o demônio, o bem, o mal, tudo isso está em nossa cabeça, não no céu ou no inferno, que também inventamos. Não nos damos conta de que, tendo inventado Deus, imediatamente nos tornamos Seus escravos". Saramago

Caim – como já foi citado, quando lançado, neste espaço virtual - reconta a estória dos irmãos Caim e Abel, (e claro!) sob a óptica do ateu José Saramago.
Carregado de ironia e bom humor, Saramago aponta “deus como o autor intelectual do crime” cometido por Caim. O primogênito mata seu meio irmão, como insinua o autor, e divide sua culpa com ninguém menos que deus. Depois de um acordo firmado por ambos, o protagonista viaja pelo tempo e pelo mundo presenciando “fatos” como a destruição de Sodoma e Gomorra e a queda da Torre de Babel. A narrativa se desenvolve desde Adão e Eva até Noé e sua arca.

A certa altura, o autor escreve: “O leitor leu bem, o senhor ordenou a abraão que lhe sacrificasse o próprio filho, com a maior simplicidade o fez, como quem pede um copo de água quando tem sede, o que significa que era costume seu, e muito arraigado. O lógico, o natural, o simplesmente humano seria que abraão tivesse mandado o senhor à merda, mas não foi assim. Na manhã seguinte, o desnaturado pai levantou-se cedo para pôr os arreios no burro, preparou a lenha para o fogo do sacrifício e pôs-se a caminho para o lugar que o senhor lhe indicara, levando consigo dois criados e o seu filho isaac. No terceiro dia de viagem, abraão viu ao longe o lugar referido. Disse então aos criados, Fiquem aqui com o burro que vou at lá adiante com o menino para adorarmos o senhor e depois voltamos para junto de vocês. Quer dizer, além de tão filho da puta como o senhor, abraão era um refinado mentiroso, pronto a enganar qualquer um com sua língua bífida, que neste caso, segundo o dicionário privado do narrador desta história, significa traiçoeira, pérfida, aleivosa, desleal e outras lindezas semelhantes”.

(Caim, José Saramago)

5.4.11

Vem, que eu ainda espero, vem...

Vai sim, vai ser sempre assim
A sua falta vai me incomodar,
E quando eu não agüentar mais
Vou chorar baixinho, pra ninguém ouvir.
Vai sim, vai ser sempre assim,
Um pra cada lado, como você quis
E eu vou me acostumar,
Quem sabe até gostar de mim.
Mesmo que eu tenha que mudar
Móveis e lembranças do lugar,
O meu olhar ainda vê o seu
Me devorando bem devagar.
Vem, que eu ainda quero, vem.
Quando menos espero a saudade vem
E me dá essa vontade, vem
Que eu ainda sinto frio
Sem você é tudo tão vazio
Vem me dar essa vontade,
Vem que esse amor ainda é meu.
Troco todos os meus planos por um beijo seu
E essa noite pode terminar bem.
Luiza Possi e Dudu Falcão


Neste momento: Paris

Nasci no Brasil, meu sobrenome é italiano, tenho passaporte português, moro na Inglaterra e estou pela primeira vez na França. Hoje...