30.3.11

Soneto do amor eterno


De tudo, ao meu amor serei atento
Antes e com tal zelo, e sempre e tanto
que mesmo em face do maior encanto
dele se encante mais meu pensamento.
Quero vive-lo em cada vão momento
e em seu louvor hei de espalhar meu canto
e rir meu riso e derramar meu pranto
Ao seu pesar ou ao seu contentamento.
E assim quando mais tarde me procure
quem sabe a morte, angustia de quem vive
quem sabe a solidão, fim de quem ama
Eu possa me dizer do amor que tive:
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.

Vinicius de Moraes

26.3.11

A Brincadeira

Algumas vezes estamos egoistamente preocupados com nossos próprios umbigos e esquecemos que algumas atitudes - ou a falta delas - afetam outras pessoas. 

Por nos esquecermos que não devemos despejar palavras aleatoriamente aos ouvidos de outrem, magoamos de forma gratuita quem dizemos querer bem. Pior, talvez, que a falta de comunicação é o excesso de palavras que são apenas palavras. Soltas e levianas.

Em sua obra intitulada A Brincadeira, Milan Kundera conta a história de Ludvik, um homem de meia idade que passa um final de semana na cidade onde nasceu e passou sua infância. Suas lembranças e de outros personagens se entrecruzam e mostram a dificuldade da comunicação humana.

Kundera recebeu em 1968 o prêmio anual da União de Escritores Tchecos pela obra intitulada A Brincadeira, publicada em Praga na Primavera de 1967. O romance vendeu mais de 120 mil cópias, esgotando três edições sucessivas. Porém, dois meses depois de seu lançamento no Ocidente o livro ganhou uma conotação política muito mais forte do que a pretendida pelo autor, fazendo com que a obra fosse tirada de circulação por algum tempo.

Trechos interessantes:
“Nem antes nem depois desse episódio li versos para quem quer que fosse; possuo um pequeno sistema que funciona bem, um fusível de pudor, que impede que eu me desnude demais diante das pessoas, revelando meus sentimentos; ora, ler versos, para mim, não é apenas como se eu falasse de meus sentimentos, mas como se ao fazê-lo, ficasse equilibrado num pé só; como se alguma coisa de compassado, no próprio princípio do ritmo e da rima, me embaraçasse tanto que para fazê-lo precisasse estar só. Mas Lucie possuía um poder mágico (que depois dela nunca mais ninguém teve) de fazer funcionar o fusível e desfazer meus escrúpulos. Diante dela, eu podia me permitir tudo: mesmo a sinceridade, o sentimento, o patético”.

(...) “Caminhei sobre os paralelepípedos poeirentos e senti a pesada leveza do vazio que pesava sobre minha vida: Lucie, a deusa das brumas que outrora se recusara a ser minha, ontem tinha transformado em nada minha vingança cuidadosamente premeditada e logo depois mudou até a lembrança de si mesma numa espécie de zombaria aflitiva ou de impostura grotesca, já que as revelações de Kostka comprovavam que durante todos esse anos eu me recordara de uma outra mulher, que na realidade eu nunca soubera quem era Lucie”.

(A Brincadeira, Milan Kundera)

15.3.11

A Cabana

Como já foi citado outrora nesta página virtual existem livros que realmente não são possíveis de ler até o final. Não sou especialista em literatura, mas sou leitora assídua e admiradora de belas obras de arte.
A Cabana esteve em 1º lugar na lista dos mais vendidos do The New York Times, e já vendeu mais de 12 milhões de exemplares. O que isso deveria significar? Que é um bom livro? Deveria ser. Mas com o perdão de quem gostou, essa não é uma obra que merecesse tal posto, nem de longe. Para quem não está acostumado a ler - ou nunca teve sequer um contato mínimo com os clássicos da literatura universal, ou mesmo nacional - pode até ser, talvez, atrativo.
O referido conta a estória de Mack Allen Phillips, um homem que teve sua filha de seis anos raptada durante um acampamento de fim de semana. A menina nunca foi encontrada, mas sinais de que ela teria sido assassinada são achados em uma cabana perdida nas montanhas. Quatro anos depois, Mack recebe um bilhete supostamente escrito por Deus, convidando-o para uma visita a essa mesma cabana.
Daí em diante só lendo para ter a dimensão do quanto o livro é absurdo. Desde a forma que William P. Young escolheu para relatar a ficção até o conteúdo forçosamente questionável e duvidoso.
Resisti bravamente a questão da escrita redundante e carregada de detalhes completamente desnecessários até certa página, mas depois de Deus se apresentar ao personagem como uma mulher negra e gorda que só fazia cozinhar; Jesus, carpinteiro, oriundo do Oriente Médio; e uma outra mulher asiática, ao que me parece, era o espírito santo. Aí foi demais pra mim.
Auto ajuda de cunho religioso, acompanhada de diálogos pobres, questionamentos respondidos de forma totalmente descabida, foi mais do que eu conseguiria suportar.
A trama inicial foi esquecida, a única coisa que importava era que o protagonista perdoasse e se livrasse da tristeza pelo ocorrido. Mas até que ponto é saudável perdoar o sujeito que lhe causou a maior dor que se poderia imaginar? É surreal compreender, justificar ou aceitar tal atrocidade.
Mensagens positivas são sempre bem vindas, mas que não tentem explicar o inexplicável de forma tão rasa e alienante.
O pior é que nas últimas linhas de tal esparrela encontra-se um apelo no estilo “corrente da internet”. Essa realmente foi uma das piores obras que passaram por minhas mãos. Mais um desperdício.
É tão bom voltar ao mundo real. Encerrada precocemente essa tentativa de leitura deparo-me com Milan Kundera. Ufa, que alívio! Esse sim renderá boas linhas neste espaço.

10.3.11

Tristeza

Todos os dias muitas pessoas são convocadas para o próximo nível desse joguinho de vídeo game mais conhecido como vida. Essa semana mais duas crianças perderam uma avó. Dois jovens perderam a mãe, uma moça perdeu a madrinha. Irmãs, tias, primas. Em uma família de muitas mulheres uma se foi. Ela, que não teve uma vida fácil em toda a sua extensão, em nenhum sentido, nos deixou ainda jovem. Uma pessoa divertida e de sorriso fácil. Ultimamente, ao que me consta, estava feliz, aproveitando a vida.

É muito difícil lidar com a morte. Procuro nem pensar muito sobre o assunto, mas quando alguém perto de nós nos deixa o choque é inevitável.

É muito triste saber que todos vamos um dia, porque quem fica, na grande maioria das vezes, não está preparado para enfrentar a ausência. Quem foi, certamente está melhor do que quem fica e pelo menos isso nos conforta.

Sinto pena de quem sente culpa ou remorso por atitudes equivocadas para com quem acaba de partir. Por ignorância, a lição não foi aprendida, mas a vida uma hora apresenta a conta a ser paga. E é isso que assusta.

Que a tristeza de quem se vê agora sem chão, não seja tão dura. Que ela saiba que é preciso continuar, pois duas lindas criaturinhas dependem da força de uma só. Que essa força seja verdadeira e permanente. Que ela saiba que independente de qualquer coisa, ela não está sozinha.

Neste momento: Paris

Nasci no Brasil, meu sobrenome é italiano, tenho passaporte português, moro na Inglaterra e estou pela primeira vez na França. Hoje...