Leitura seletiva
Em entrevista concedida a uma revista mensal, o psicanalista e professor Pierre Bayard pediu aos colegas que parassem de fingir que lêem tudo e que admitam que não é essencial ler um livro até o fim.
Nunca havia pensado por esse lado. Senti-me arrasada quando, ainda adolescente, comecei a ler “Violetas na Janela” e não consegui passar da 20ª página. Pensei que estava emburrecendo ou começando a ter preguiça de ler.
Após uma breve reflexão sobre o assunto, percebi que “Patrícia” estava subestimando minha inteligência com aquelas explicações simplistas e ridículas.
Fiquei horrorizada ao “descobrir” que quando morrer vou continuar andando de ônibus no andar de cima. Depois disso, passei a pensar seriamente em ir para o inferno, lá é quente e nunca ouvi falar que tem esse tipo de transporte coletivo. Não fazia sentido, dentro de um ônibus lotado sentia-me perto do inferno. Isso bagunçou um pouco minha cabeça.
Mas, superei os traumas deixados por Patrícia e agora não me preocupo mais. Se o livro é chato ou não me acrescenta nenhum conhecimento útil, deixo de lado sem pestanejar.
Com o livro seguinte descobri que adoro ler, de tudo um pouco, embora tenha aprendido a selecionar melhor os autores.
Quando minha mãe, a maior incentivadora e direcionadora de minha leitura, ficou sabendo do fato me deu uma bronca por ter começado a ler um livro como esse.
Não foi isso que ela me ensinou. No começo da minha adolescência, ela lia poesia pra mim. Lembro-me claramente da sua boca em movimento e o som de sua voz dizendo, “minha alma de sonhar-te anda perdida, meus olhos andam cegos de te ver. Não és se que razão do meu viver, pois que tu és já toda a minha vida. Não vejo nada assim enlouquecida, passo no mundo meu amor a ler, no misterioso livro do teu ser, a mesma história tantas vezes lida.”
Com esse começo, dificilmente leio coisas ruins novamente, agora com a declaração de Bayard, fico com a consciência tranquila. Pensando bem, dependendo da leitura nem há necessidade de ler até a última página, economiza-se tempo.
Amiga minha, que delicia ler sua crônica. Não conheci Patricia, mas ja era discípula de Bayard sem saber.
ResponderExcluirQue as orelhas dos livros nunca parem de caguetar histórias ruins! rs*