“Certas histórias não param de acontecer em nós até o fim da vida”. Assim termina o ‘Leite Derramado’.
Com doçura, sensibilidade e um pouco de caduquice, Lalinho, em seu leito de hospital narra suas histórias mirabolantes e por vezes confusas e repetitivas.
O poeta Chico Buarque foi muito feliz na descrição das memórias de Eulálio. Como a maior parte dos velhos, as principais lembranças são as mais antigas e para o protagonista a lembrança dos dias vividos ao lado de seu grande amor, são as que norteiam todo o resto. Pra nós leitores fica uma admiração pelo sentimento que ele nutria por ela, que misteriosamente deixou de fazer parte da sua vida, pelo menos é o que ele lembra.
“Se não fossem meus tremores e câimbras nas mãos, eu preencheria de meu próprio punho, com caligrafia miúda, um caderno para cada dia vivido ao lado da minha mulher. Já depois que ela se foi, meus dias seriam de imenso papel para pouca tinta, extensos e vazios de acontecimento”.
Sem Matilde a vida não era mais vida.
Leitura deliciosa, capaz de nos fazer mergulhar na mente de um velho cheio de histórias pra contar. Além de nos conduzir a viajar pelas nossas próprias lembranças, inclusive as que ainda nem existem e algumas que provavelmente nem existirão. Mas que acontecerão em nós até o fim da vida.
Viva Chico!

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